Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós.

2 Tessalonicenses 3:8

INTRODUÇÃO


   O trabalho é dom de Deus. Esta simples afirmação já é verdade suficiente para encararmos o trabalho como algo
sério e que está diretamente relacionado à nossa interação com o mundo criado e o próprio Criador. Quando falamos em mordomia estamos nos referindo à essência da tarefa de um administrador ou mordomo
36.
    Temos que concordar que nem todos pensam que o trabalho é um dom de Deus. A maioria das pessoas o vê apenas como um “mal necessário” para alcançar o sustento material e até o luxo, se puder. Porém, neste estudo, nós estamos partindo de uma visão bíblica sobre esta ferramenta 
que o Criador nos entregou, para que atingíssemos uma maior finalidade: glorificar-Lhe o Nome.
   O grande fator responsável para uma maneira negativa de se encarar o trabalho é a perda da comunhão do ser humano com Deus (ou seja, pecado). Nos primórdios da humanidade, o trabalho já estava sendo visto de maneira negativa. Quando Lameque gerou um filho deu-lhe o nome de Noé. E a razão para a escolha desse nome foi:
Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou (Gênesis 5:29). Entretanto, isso não quer dizer que a proposta de Deus foi lançada por terra. Em Cristo, poderemos ver as coisas por outro ângulo. Ângulo este que nos convencerá de que o trabalho é uma área vocacional de nossas vidas que o Senhor nos concede para que Seu nome seja exaltado.
    Em nosso texto de estudo, Paulo fala de trabalho não de uma maneira genérica. Antes, ele destaca a importância do trabalho mostrando as implicações negativas advindas de uma vida sem a ocupação do trabalho. Em primeiro lugar, ele pontua o óbvio, afirmando que quem não trabalha também não deveria comer. Só que esse argumento é apenas uma ponte para o argumento maior. Paulo vê muito valor no trabalho, porque este neutraliza a ociosidade, que por sua vez pode levar a um comportamento que só tende a depreciar a imagem de Cristo em nós.


TRABALHO – UMA TRADIÇÃO ENSINADA


   O primeiro detalhe importante neste texto é que, pelo menos nesta passagem, a palavra “tradição” (gr. paradosis)
é tomada em sentido positivo. A tradição a qual Paulo se refere era aquele conjunto de ensinos em que os apóstolos e discípulos estavam em comum acordo. Creio que a necessidade de se falar sobre o trabalho foi resultado de questionamentos ou comportamentos surgidos enquanto a igreja crescia. Não podemos dizer que o apóstolo Paulo tinha um manual doutrinário específico sobre o assunto trabalho. Apenas aplicou os princípios do Antigo Testamento ao contexto de sua época.
   É interessante frisar que, nesta segunda carta aos Tessalonicenses, não foi a única vez que Paulo tocou neste assunto. Em outra oportunidade, ele já havia escrito:
esforcem se para ter uma vida tranquila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar comas próprias mãos, como nós os instruímos; a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém (1 Tessalonicenses 4:11 NVI). Perceba que, neste texto, Paulo afirma que “já” havia instruído aqueles irmãos sobre a mordomia do trabalho. O que nos leva a crer que aquela comunidade específica tinha realmente um problema com relação a este assunto. Se não fosse assim, Paulo não teria mencionado o assunto por tantas vezes.
    Porém, o que importa destacar neste tópico é que Paulo e os demais apóstolos e companheiros de ministério tinham um posicionamento bíblico sobre o assunto. Se a mordomia do trabalho fazia parte de certa tradição, então no mínimo o assunto tinha peso e deveria ser levado a sério.

 

   O trabalho neutraliza a ociosidade, evitando assim males maiores. O trabalho deve ser visto como meio de dar bom testemunho aos de fora, alcançar o sustento de modo digno e uma forma de glorificar a Deus.

 

TRABALHO – UMA TRADIÇÃO VIVIDA POR PAULO, SILVANO E TIMÓTEO


   Nem tudo o que Paulo teria a falar sobre o trabalho ficaria restrito ao campo das ideias. O apóstolo fez questão de
afirmar que tanto seus companheiros de ministério
37, como ele próprio, trabalharam noite e dia e com muita fadiga e diligência (cf. 2 Tessalonicenses 3:8). Paulo só ensinou aquilo que ele mesmo viveu. No miolo desta afirmação ele apresenta o princípio da imitação. Assim como eles trabalharam em Tessalônica para não serem pesados a ninguém, também deveriam fazer o mesmo os irmãos daquela igreja que estavam deixando de trabalhar. Além de seu próprio exemplo, Paulo esclarece ainda duas coisas.
   1.
se alguém não quiser trabalhar, também não coma (2Ts 3:10, NVI). Paulo fundamenta seu argumento apelando para o senso comum. O trabalho deveria ser valorizado pelo simples fato de que estava relacionado a uma das necessidades mais básicas da vida de um ser humano – a alimentação. Qualquer um sabe, na prática, o quanto isso é verdade. Diante de uma verdade tão inconteste como esta, poderia não ser necessário
nenhum outro argumento em favor do trabalho. Mas, Paulo tinha mais coisas em mente.
    2. “...
não porque não tivéssemos tal direito (2 Tessalonicenses 3:9 NVI). Junto com o que foi dito acima, Paulo acrescenta ainda mais um fato. Paulo diz que eles (o próprio apóstolo, Silvano e Timóteo) não precisavam trabalhar. Ele entendia que o obreiro deve ser digno de seu salário. Ou seja, faz parte da vida de um propagador do Evangelho receber no mínimo o sustento físico por parte dos irmãos da Igreja do Senhor. Paulo esboça esse seu entendimento em outra epístola: não amordace a boca do boi enquanto está debulhando o cereal (1 Timóteo 5:18 NVI). O contexto desta frase refere-se ao sustento dos presbíteros (pastores). Isso revela para nós, o quanto Paulo e seus companheiros tiveram de abrir mão, para que o Evangelho fosse ali anunciado sem impedimento algum. Isso deu mais peso ainda aos seus argumentos. Se até os “pregoeiros” escolheram trabalhar, para não dar mau exemplo, quanto mais os membros daquela igreja? Aliás, isso canalizanos para nosso próximo tópico.

 

   Paulo usa o trabalho como um princípio didático, ou seja, ele abriu mão de seu direito em ser “sustentado pela
igreja” para ensinar sobre uma vida laboriosa, bem como evitar impedimento na pregação do Evangelho.

 

TRABALHO – UMA ATIVIDADE QUE AFASTA COMPORTAMENTOS ERRADOS


   Nem sempre é possível imaginarmos as consequências desastrosas de uma vida ociosa. As pessoas que não estavam trabalhando acabaram se empenhando em outra tarefa. O comportamento assinalado aqui é puramente repreensível. Paulo poderia ter deixado este assunto de lado quando foi informado sobre as “férias prolongadas” daquelas pessoas. Entretanto, a ociosidade deles representava uma ameaça para a Igreja. E, foi justamente por causa disso que Paulo gastou algum espaço, numa carta de cunho fortemente escatológico, para falar sobre isto.
   Usando como pano de fundo a primeira carta juntamente com o da segunda, veremos que, à luz da segunda vinda de Cristo, alguns irmãos estavam deixando de trabalhar. Tudo parece indicar que era porque eles estavam plenamente cientes de que Jesus voltaria a qualquer momento. Howard Marshall assinala como o tema da vinda de Jesus criou certas aspirações para aqueles irmãos: “Havendo lido 1ª Tessalonicenses, podemos logo avaliar como a espera de uma iminente crise e apoteose futuras poderia ter sido facilmente alimentada, de tal forma que as pessoas se sentissem aptas a afirmar que de fato estavam vivendo os últimos dias”38. Mas, e o que há de errado nisso? Realmente não há nada de errado em ficar vigilante quanto à volta de Jesus. Porém, apesar de a volta de Jesus ser caracterizada de forma inesperada (cf. 1Ts 5:1-10) e de que será em breve, alguns eventos escatológicos precederiam a vinda do Rei do Reis.
   Na segunda carta àqueles irmãos, Paulo cita pelo menos um evento significativo que acontecerá antes da segunda vinda de Jesus: a manifestação do homem do pecado (cf. 2Ts 2:1-12). Sendo assim, nada justificava o comportamento de 
andarem se intrometendo em vida alheia (2 Tessalonicenses 3:11 NVI). A exortação que Paulo tinha para fazer sobre isso era tão séria que ele fez questão de atrelar à sua advertência o poderoso nome de Jesus: “no Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 3:12).

 

   A expectativa da volta de Jesus não dever gerar no cristão o sentimento de que pode viver relaxadamente, enquanto está nesse mundo sua vida deve ser de disponibilidade para obter o seu sustento como o suor do seu próprio rosto.

 

CONCLUSÃO


   Trabalhar não é um “mal necessário”. Somos mordomos deste dom que o Senhor nos deu. Trabalhar é um dos objetivos de nossa vida para nos levar ao propósito maior que é glorificar a Deus, fazendo a Sua vontade. Mas, se você tem dúvidas quanto a entender a diferença entre a vontade de Deus e seus objetivos pessoais, veja o que Avery Willis diz:
   Você não tem de descobrir os aspectos gerais da vontade de Deus. Ele já os revelou. O propósito de sua vida deve se relacionar à salvação do mundo e à santificação do povo de Deus. Após estabelecer seu propósito de vida, então você poderá se concentrar nos objetivos pessoais por perguntar-se como pode melhor levar a cabo a vontade de Deus em suas decisões sobre casamento, profissão, e outras áreas da vida39.
    Talvez você ache que o seu trabalho é justamente o que lhe afasta de Deus. Talvez você acredite que se trabalhasse integralmente como pastor, missionário, obreiro, ministrador de curso bíblico ou evangelistas, sentir-se-ia mais em paz em relação a fazer a obra do Senhor. Tudo isso são falsas expectativas. São compreensões errôneas. A glória de Deus está justamente na multiplicidade e variedade de ministérios.
    Os irmãos de Tessalônica também mantiveram algumas falsas expectativas, e veja no que deu! Reexamine hoje suas compreensões. Assuma de forma revigorada seu posto de trabalho, lembrando que você não está servindo ao seu superior apenas. Mas está servindo ao Senhor de todos os superiores: Jesus!


QUESTÕES PARA DISCUSSÃO EM CLASSE


1.
O que Paulo pediu para que fizéssemos em relação àqueles que vivem na ociosidade? Em nome de quem? Por quê? (v. 6).
R.


2. Que exemplo deu o próprio Paulo, enquanto ele estava com irmãos em Tessalônica? Por que razão ele fez isso? Tinha ele direito a um ordenado? (vs. 7-9).
R.


3. Qual foi a ordem que Paulo deu com relação àqueles que ficam recusando qualquer forma de trabalho? (v. 10).
R.


4. O que Paulo ouviu que estava acontecendo entre os irmãos em Tessalônica? O que Paulo mandou tais pessoas fazerem? (vs. 11, 12).
R.


5. O que Paulo exorta o restante dos irmãos fazerem? (v. 13).
R.


6. O que Paulo disse para fazer, se alguém não obedecer a sua palavra nesta epístola? Qual é a razão para a ação disciplinar? (v. 14).
R.


7. De que maneira podemos servir a Deus melhor em nossas ocupações trabalhistas? Por que devemos glorifi car a Deus em nosso emprego?
R.


8. Como poderemos, como cristãos, servir a Cristo em nosso ambiente de trabalho. Que espécies de atitude devemos ter com nossos colegas, patrões, etc.?
R.

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