A lição de hoje traz um ponto fundamental do evangelho, a importância do discipulado dentro da família. Assim como muitos irmãos em Cristo, eu não nasci em um berço cristão. Aceitei a Cristo aos vinte e seis anos juntamente com minha esposa. Nosso filho teve o privilégio de nascer em um berço cristão, mas só isso não basta. Neste estudo vamos ver a importância de discipular nossa casa e deixar em evidência o temor ao Senhor e as obras d’Ele realizadas a nosso favor. Ao contrário de Moisés, Josué não havia preparado um sucessor que ficasse em evidência. Assim, ao falecer, a nação ficou sem um governo central forte e sem um chefe de Estado que representasse o governo divino. E uma nova geração se levantou, quebrando a aliança com Deus. 

UM POVO SEM MEMÓRIA?

Antes de morrer, com a idade de 110 anos (Josué 24:29-30), Josué reuniu todo o povo em Siquém e os advertiu severamente para que temessem a Deus. Relembrou-lhes do fato de que o Senhor chamara a Abraão para que não servisse a outros deuses. Assim eles deram continuidade e cumpriram o pacto estabelecido com os patriarcas, introduzindo o povo na terra prometida (Josué 24:14-15). Quando chegaram, o modelo de governo dos hebreus era diferenciado do modelo de seus vizinhos. Enquanto estes possuíam um sistema governamental formado por reis e príncipes que decidiam tudo por seus estados, o povo hebreu não possuía nenhuma organização estatal organizada.1 Quando os hebreus entraram em Canaã, encontraram várias cidades-Estado com governos próprios, alguns dos quais se uniam a potências estrangeiras (como o Egito) ou a cidades-Estado vizinhas para enfrentar um inimigo comum. Israel se organizou tribalmente, tendo os clãs descendentes de Jacó seus próprios líderes. O povo hebreu tem o início de sua organização na Mesopotâmia. Segundo Jaime Pinsky, “Isso é contado na bíblia e comprovado por diversas evidências”. Essas tribos estavam unidas pelo vínculo religioso, este era o fato exclusivo da aliança entre Israel e o seu Deus.

Este tipo de aliança é chamado por Bright de anfictionia (direito de ser representado numa assembleia), não foi um sistema exclusivo de Israel. Em um período posterior, sistemas parecidos como este foram encontrados em outros povos, como os gregos de onde se originou este nome.2 Depois que os Hebreus, agora Israel, entraram e possuíram a terra prometida, passaram por um processo de esfriamento espiritual. Eles ‘esqueceram’ da origem da sua força e proteção. Sobre o perigo do esquecimento de nossas memórias, a historiadora Emília Viotti comenta:

“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”.

Como o homem gosta de colocar a culpa em alguém, poderíamos nos perguntar: a culpa foi de Josué ou das lideranças tribais? Nossa certeza é de que o livro de Juízes não procura revelar um culpado pelo caos que viria a seguir, mas, o fracasso de Israel, baseado no esquecimento da aliança que seus pais haviam feito com Deus.

O DEUS DOS PAIS, OS DEUSES DOS FILHOS

É neste período que Israel teria que provar para Deus a sua fidelidade. Depois da morte de Josué, foram mais de trezentos anos sem um líder nacional. As tribos viviam de forma independente e cada indivíduo era a lei para si mesmo. Com o passar dos anos ficavam cada vez mais esquecidos das obras do Senhor. Quando Josué foi encorajado, no momento mais difícil da sua vida, que era assumir a liderança de um povo rebelde, inconstante e murmurador, Deus mostrou Seu cuidado, Sua proteção e Sua presença “todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado” (Josué 1:3). E Quando falou de ânimo e esforço para alcançar vitórias, não estava falando apenas das questões militares, mas sim do estado espiritual e do nível de obediência a Deus. “Esforça-te e tem bom ânimo, porque tu farás a este povo herdar a terra que jurei a seus pais” (Josué 1:8).

No livro de Juízes no capítulo 2, já de início encontramos uma ‘teofania’, ou seja, uma revelação visível de Deus (Bíblia de Genebra). O diálogo começa com uma recordação “Eu vos tirei da terra do Egito e trouxe a terra que prometi” (2:1), seguido por uma confirmação de Sua fidelidade “Nunca invalidarei o meu concerto convosco” (v1). Enquanto Deus firmava a aliança, garantida pela Sua pessoa imutável (Hebreus 6:18), o povo continuava prometendo sem saber se conseguiria cumprir (Josué 24:31). Deus, na sua indignação, faz uma pergunta retórica: “vós não obedecestes à minha voz. Por que fizestes isso? ” (Juízes 2:2), assim como um pai e uma mãe muitas vezes não entendem o porquê da rebeldia dos filhos, o Senhor não entendia como um povo tão amado podia fazer o contrário, sabendo das consequências “Mas, se não lançardes fora os moradores da terra de diante de vós, então, os que deixardes ficar deles vos serão por espinhos nos vossos olhos e por aguilhões nas vossas costas e apertar-vos-ão na terra em que habitardes” (Números 33:55).

Quando a geração de Josué se foi, a paz e a prosperidade prometidas numa terra farta de leite e mel desapareceram e deram lugar ao caos e à confusão. O refrão de todo o livro de Juízes é: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto” (Juízes 17:6; 18:1; 19:1; 21:25). A causa principal da trágica situação de Israel nesse período era a falta de uma liderança temente a Deus.3

O SENHOR DISCIPLINA O SEU POVO

Deus requer obediência absoluta de todos os seus filhos. Quando somos desobedientes, desagradamos ao nosso Pai e sofremos as consequências. E mesmo quando confessamos nossos pecados e somos perdoados segundo a misericórdia d’Ele, há casos em que os estragos não podem ser desfeitos. Deus tinha prevenido seu povo sobre as consequências de manter aquelas nações “Não os expelirei de diante de vós; antes, estarão às vossas costas, e os seus deuses vos serão por laço” (Juízes 2:3) e fazer pactos com elas. Os israelitas esqueceram porque Deus os tinha escolhido. A referência bíblica de tal escolha era “porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais”.

Havia uma aliança que garantia a ação de Deus a favor do seu povo. Nas alianças iniciadas por Deus não é permitida nenhuma negociação de Seus termos. Deus é quem define todas as condições. As pessoas somente podem aceitar ou rejeitar a oferta de Deus. Elas não podem questionar a forma nem a estrutura dessa aliança. Deus e nós não somos parceiros iguais. Deus é o criador e nós somos Sua criação. Nosso bem-estar depende do Seu amor e favor. O Novo Dicionário de Oxford, define o uso teológico da palavra aliança como “um acordo que gera uma relação de compromisso entre Deus e o Seu povo”. Também agora, Deus deixaria de lutar ao lado de Israel porque o acordo foi quebrado. O relato de Juízes deixa bem claro que depois da morte de Josué e toda aquela geração que entrou na terra prometida e que tinha visto a Glória de Deus, levantou outra (os filhos herdeiros da promessa e da aliança) que não conhecia o Senhor, nem tampouco o que Ele havia feito a Israel (Juízes 2:10).

Como diz um provérbio do povo Baganda de Uganda: “Não despreze a história, pois sem ela o presente fica sem âncora e o futuro ficará sem bússola”. Tal realidade é exemplificada no comportamento dessa geração irresponsável que abandonou a aliança que seus pais tinham com Deus e passaram a adorar falsos deuses (2:11-13), fazendo o que era mau perante o Senhor (2:11) e suscitando sua ira.4

CONSEQUÊNCIAS DA DESOBEDIÊNCIA

O fato de o povo aceitar as condições impostas por Deus consolidava o pacto. Mas se depois disso, eles desobedecessem, então iriam perder as bênçãos que Deus lhes havia prometido. Depois que o Anjo deu a sentença, “não os expulsarei” (v3), eles viram o tamanho do erro e as consequências vindouras. Assim o “povo chorou em alta voz” (v4). Talvez em sinal de penitência, o povo ofereceu ao Senhor sacrifícios pelo pecado, conforme a lei exigia (Levíticos 1:1-17; 4:1-34). A ira do Senhor se levantou contra o povo (2: 14, 21), pois deixaram de adorar o Criador para adorar aos baalins ( deuses), abandonando a adoração a Deus e servindo a Baal e Astarote. A palavra Baal (deus cananeu cujo nome quer dizer: senhor, possuidor ou marido) era empregada a várias divindades espalhadas por Canaã.5 Mas a apostasia não parou por aí. Outra grande divindade pagã também era adorada agora pelos filhos de Israel, Astarote (cujo nome alternava entre Anate, Astarte ou Asera dependendo da localidade). Eram conhecidas como deusas do sexo e da guerra. Em meio ao sadismo, prostituição, homossexualismo e as práticas de sacrifícios humanos, Israel afundava cada vez mais em seus pecados e renunciava os cuidados de Deus.6

A teologia de Deuteronômio – obediência e bênção, desobediência e maldição, faria parte dos próximos anos, e aquela geração “... outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor...”experimentaria o que acontece quando cada um faz o que bem entende, e não o que o Senhor diz. A desobediência à ordem para expulsar os povos de Canaã permitiu que oito nações ficassem na terra (2:20-21),filisteus, cananeus, sidônios, heveus, heteus, amorreus, ferezeus e jebuseus (3:3,5). Agora, não haveria descanso ao povo de Israel.

Os israelitas não haviam cumprido sua parte na promessa e não ficariam impune ao romper um acordo dessa magnitude. De Êxodo a Deuteronômio vemos a luta de Moisés para manter o povo no caminho designado por Deus. Várias vezes foram repetidos os mandamentos, e outras inúmeras exortações foram feitas para que isto não acontecesse. Podemos observar então que cada um deve fazer a sua parte para que a nossa casa esteja debaixo das promessas do Senhor. A luta pela santidade e salvação é um dever de todos. Em última análise, todas as batalhas enfrentadas pelos cristãos são do Senhor (2 Crônicas 20:15-20), e devemos confiar Nele e obedecer-Lhe em todas as situações.

 

CONCLUSÃO

O preço a ser pago pelo uso pacífico da Terra Prometida era a adoração fiel ao Senhor. O tema central de Juízes confirma a lei espiritual segundo a qual a obediência a Deus traz Suas bênçãos, enquanto a desobediência resulta em castigo e maldições. Ao longo de todo o livro, tão certo como a noite vem depois do dia, o pecado do povo é seguido de sofrimento. No entanto, sempre que os israelitas clamam a Deus, Ele os atende e os perdoa. Tais realidades são unidas de forma inextricável, indicando que colhemos aquilo que semeamos. Mas, assim como o pecado e o sofrimento são inseparáveis, a súplica e a salvação também andam juntas.

 

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO EM CLASSE

1- Por que Josué reuniu o povo em Siquém ( Josué 24 14-15)?

2- Uma nova geração se levantou que não conhecia ao Senhor (2:10), Inocentes ou culpados?

3- Quais as consequências de quebrar a aliança com Deus?

4- Após analisarmos o ensinamento teológico de Deuteronômio (bênção ou maldição), qual deve ser nossa atitude referente à Aliança de Deus com nossa família?

REFERÊNCIAS

1 GUSSO, Antônio Renato. Panorama histórico de Israel. Curitiba. A.D. Santos, 2006. p.39.

2 BRIGHT,J. História de Israel. São Paulo. Edições Paulinas. 1985. P. 210-211.

3 TOKUNBOH, Adeyemo. Comentário Bíblico Africano. São Paulo, 2006. Mundo Cristão, p. 794.

4 TOKUNBOH, op. cit., p.806.

5 PAYNE, D.F. Baal. São Paulo. Edições Vida Nova, 1983. p. 186

6 ALLEN, R. B. Astarot. São Paulo. Edições Vida Nova, 1998. P.1188-1191.

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