Texto de Estudo: Provérbios 25:1-10

A próxima seção do livro de Provérbios, que compreende os capítulos 25 a 29, é introduzida com estas palavras: São também estes provérbios de Salomão, os quais transcreveram os homens de Ezequias, rei de Judá (v. 1).

Salomão reinou em Israel entre 970-930 a.C. e compôs três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco (1Reis 4:32). No entanto, encontramos o registro bíblico de um pouco mais de 500 provérbios. O segundo livro de Salomão foi compilado de um rolo para outro nos dias de Ezequias, rei de Judá, que reinou 200 anos após a morte de Salomão. Sem sombra de dúvida, muitos dos provérbios do rei Salomão não foram originalmente incluídos na compilação. Assim, a maioria de seus provérbios perdeu--se com o passar do tempo, embora haja alguns deles em outros lugares, a exemplo do livro de Eclesiastes.

Respeito às autoridades superiores

Nossa lição começa com um contraste entre Deus e o rei: Respeitamos a Deus por causa daquilo que Ele esconde de nós; e respeitamos as autoridades por causa daquilo que elas nos explicam (v. 2, NTLH). Muito embora o texto hebraico, em si, seja bastante simples, as duas frases são um pouco enigmáticas. Aqui temos a ocorrência do chamado paralelismo antitético, que é o contraste das frases entre si, compartilhando certos elementos semelhantes.

Para o sábio, os mistérios que Deus não revelou ao homem é que mostram a Sua glória (cf. Deuteronômio 29:29). Há muitos detalhes a respeito de Sua obra criadora e redentora que não podemos compreender. A glória dos reis, por outro lado, é tentar descobri-las (v. 2). O contraste (antítese) é que, enquanto Deus esconde, o rei expõe. A ideia central não é a de que o rei deve sondar a mente de Deus, posto que isso é impossível (cf. Romanos 11:33-34; 1Coríntios 2:16), mas investigar os fenômenos que ocorrem à sua volta, para, assim, poder governar sabiamente.

As palavras "reis", "esquadrinhá-las" e "insondável" ligam os versículos 2 e 3. De acordo com a Bíblia de Genebra:

Deus aumenta a Sua glória sendo incomensurável e insondável, como faz o rei dentro de seu próprio reino (vv. 2,3). O rei está acima de seus súditos porque nenhum deles pode compreender o conhecimento vasto e os motivos do seu soberano. Deus, por sua vez, não pode ser perscrutado nem pelo rei, mostrando que o Senhor é exaltado muito acima até mesmo do monarca (cf. Deuteronômio 29:29; Jó 26:14; Romanos 11:33-36). Em resumo, os vv. 2,3 definem uma hierarquia de sabedoria, autoridade e poder: o rei acima de seus súditos, Deus acima do rei e dos respectivos súditos. O rei escolhido por Deus é digno de reverência e não pode ser tratado com descaso; muito maior, então, deve ser a reverência de todos para com Deus. 11

A compreensão adequada da distância entre Deus e os seres humanos é o primeiro passo para discernir comportamentos adequados em muitos contextos e situações. Mas há aqui, ainda, uma segunda lição: um executivo sábio deve sempre manter uma reserva saudável e não revelar tudo o que se passa em sua mente. Ele precisa estar sempre um passo à frente daqueles que lidera, mantendo um controle firme com base na autoridade dada a ele. Ele deve tomar decisões justas e sábias, mas também deve cultivar um respeito que lhe permita liderar.

O versículo 4 traz uma ilustração e o versículo 5 a sua aplicação. A palavra hebraica traduzida por "tirar" é usada em ambos os versículos, vinculando-os. A ilustração é a refinação de prata. A "escória" (v. 4) de metais menos nobres tem que ser removida por meio do aquecimento, para que a prata possa ficar absolutamente pura. O ourives terá, então, material para fazer um vaso precioso.

A imagem de refinamento da prata de sua escória é usada várias vezes na Bíblia para falar de provação espiritual e purificação (Provérbios 17:3; Ezequiel 22:17-22; Zacarias 13:09; Malaquias 3:2,3). Porém, a aplicação da remoção de escória em nossa passagem é mais específica: Tira o perverso da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça (v. 5). Os "perversos" ou "ímpios" são os maus conselheiros. O governo em que tais pessoas são influentes está contaminado com a escória espiritual, não importa o quão bem-intencionado o governante possa ser. Eventualmente, eles irão contaminar todo o sistema político. Em nosso texto, o rei é aconselhado a refinar sua administração, livrando-se dos funcionários corruptos. Só então o seu trono se firmará na justiça (v. 5).12

A questão de conduta adequada diante dos governantes e superiores é o tema dos versículos 6 e 7. O provérbio adverte a pessoa que deseja assumir uma postura imprópria para sua condição, pensando em si mesma como alguém muito importante, procurando um lugar de honra no meio dos grandes, quando, de fato, não pertence a tal grupo. Tal presunção não é susceptível de produzir bons resultados. É mais sábio esperar por uma promoção justamente merecida do que ser rebaixado publicamente pela própria pessoa que tínhamos a esperança de impressionar (v. 7a).

Cerca de mil anos mais tarde, Jesus Cristo faria referência a esse provérbio em uma de suas parábolas (Lucas 14:7-11). Não devemos buscar a honra para nós mesmos. É melhor fazermos a tarefa que nos foi designada de modo discreto e fiel. À medida que nossos superiores perceberem a qualidade de nosso serviço, eles prestarão mais atenção em nós.13

Harmonia nos relacionamentos interpessoais

A maioria dos estudiosos são a favor de que a última frase do versículo 7, a respeito do que os teus olhos viram, pertence ao versículo 8. E o estudo linguístico do texto hebraico suporta esse entendimento.

O sábio adverte contra a pressa de levar uma pessoa às raias do tribunal. Nesse sentido, feliz é a tradução da Nova Versão Internacional: O que você viu com os olhos não leve precipitadamente ao tribunal (vv. 7b,8). Uma pessoa pode pensar que viu alguma coisa que justifique uma ação rápida e expõe a situação ao público. Todavia, talvez ela realmente não tenha visto o que pensou ver ou talvez teve apenas uma visão parcial, sem um contexto maior. Seu litígio será prematuro, pois a situação deveria ter sido investigada com mais cuidado. Como resultado, se mais tarde outra testemunha provar que você está errado, o que é que você vai fazer? (v. 8b, NTLH). A advertência é contra iniciar ações legais contenciosas e desaconselhadas, o que só poderá resultar em despesas e vergonha para a pessoa que as inicia. Portanto, devemos agir com calma, prudência e sabedoria, mesmo quando temos, em nossas mãos, os meios de promover a justiça.

Os próximos dois versos parecem continuar o assunto de ações judiciais. Pleiteia a tua causa diretamente com o teu próximo, exortou Salomão, e não reveles o problema a outrem (v. 9, ARC). Ou seja, os conflitos devem ser resolvidos de maneira apropriada: por meio de acurada investigação (vv. 7b,8) e sem mexericos (vv. 9,10). Esses versículos aconselham o público leitor a não tirar conclusões precipitadas com base no que viram nem revelar informações confidenciais durante um desentendimento.

Nunca é justificável revelar um segredo com objetivo de manchar a reputação de uma pessoa. E isso porque essa atitude poderá voltar-se contra você mesmo, pois você corre o risco de ser chamado de mentiroso e ficar marcado para o resto da vida como um intrometido e falador (v. 10, BV). Portanto, não é aconselhável divulgar as atitudes de nossos inimigos, sob o risco de cometermos o pecado da difamação. Além disso, na busca pela justiça, teremos danificado duas pessoas. Teremos ferido aquele com quem contendíamos, cortando qualquer possibilidade de reconciliação, e teremos posto dúvidas sobre a nossa própria integridade.

Uma vez que a nossa reputação foi destruída, não há recuperação: você jamais perderá sua má reputação (v. 10, NVI). Vamos sempre ser rotulados de traidores e fofoqueiros, como alguém que não consegue guardar segredos. Perderemos não só nossos amigos, mas também a confiança que nos permite fazer novos amigos. Certamente uma vitória temporária não vale a pena diante dessa perda!

Discernimento é uma característica da sabedoria. As pessoas que têm um bom discernimento podem enxergar a verdadeira natureza das situações à sua volta e fazer bons julgamentos sobre elas. Agir com discernimento é agir sempre com bom senso em toda e qualquer situação.

 

 

11 BÍBLIA. Bíblia de estudo de Genebra. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica Brasileira, 2009, p. 844.

12 A expressão hebraica tsedeq, traduzida por “justiça”, tem o sentido de “aquilo que é reto, exato, direito, limpo, honesto, inocente, sem tortuosidade, perversão ou adulteração alguma”. É o antônimo do termo ´ãwâh que significa “perverter” (STRONG, James. Obra citada, p. 1.458).

13 BÍBLIA. Bíblia de estudo de aplicação pessoal. Obra citada, p. 865.

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