E FALARAM Miriã e Arão contra Moisés, por causa da mulher cusita, com quem casara; porquanto tinha casado com uma mulher cusita. E disseram: Porventura falou o SENHOR somente por Moisés? Não falou também por nós? E o SENHOR o ouviu.    

Números 12:1-2 

INTRODUÇÃO   

   Miriã é uma personagem corajosa, determinada e muito amorosa. Sua história é contada desde o nascimento do libertador de Israel, Moisés, que foi posto dentro de um cesto feito de junco e colocado no rio para escapar da matança aos meninos hebreus nascidos naquela época, a fim de não deixar que a população masculina escrava crescesse demais e se voltassem contra o reino egípcio. Miriã corajosamente seguiu o cesto flutuante ao longo do rio até que foi visto pela filha do faraó que se banhava às margens do rio. Miriã foi sábia ao perguntar à princesa se queria uma mulher hebreia para amamentar aquela criança que chorava.

   Ela era a irmã mais velha dos três filhos de Joquebede, Miriã, Arão e Moisés. Decidida e ousada, a profetisa Miriã (Êx 15:20), em um determinado tempo, achou-se no direito de ser reconhecida como aquela com quem Deus “também” falava, não era somente com seu irmão mais novo que o Senhor tinha contato. Aparentemente tentando imputar a Moisés alguma culpa por ter se casado com uma mulher não hebreia, Miriã, neste momento, questiona a decisão de Deus que tem em Moisés a pessoa escolhida para falar ao povo do Senhor, instrui-lo e guiá-lo mediante a vontade de Deus. Teria ela esse direito? E por que questionar a decisão do Senhor se ela sabia ser Deus o Soberano do povo de Israel? Por que a inveja tomou-lhe o coração?

 

UM PONTO INTRIGANTE

   Podemos nos perguntar sobre o castigo que recebeu Miriã e que não foi imputado a Arão, seu irmão do meio, que fora porta-voz de Moisés durante a libertação no Egito. Foi consagrado como sacerdote em Êxodo 28, porém seu irmão mais novo continuava como líder do povo hebreu. Contudo Arão teve suas fraquezas de caráter ao deixar-se enredar por pessoas que o levaram a pecar contra Deus. Em Êxodo 32, o texto mostra um povo impaciente, revoltado e incrédulo (parece com os dias de hoje?) que pela demora do retorno de Moisés pressiona Arão para que lhe faça deuses, no que Arão cedeu. “Depois, quando Moisés devia se encontrar sozinho com Deus na montanha, ele nomeou Arão como líder interino do povo (Êx 24.13-18). Foi durante esse período de sua maior responsabilidade que Arão traiu tragicamente a confiança nele depositada. Menos de 40 dias depois de ter estado face a face com o Deus de Israel, Arão cedeu à pressão popular e sancionou a volta dos hebreus à idolatria”.

   Por esse pecado, o sacerdote Arão não recebeu de Deus nenhuma reprimenda ou punição. Mais tarde, em Números 12 há outro deslize do sacerdote: “...sua fraqueza revelou-se no ciúme mesquinho que o levou a juntar-se a sua irmã Miriã, numa queixa contra Moisés pelo fato de esse último ter afirmado ser o porta-voz de Deus, e por causa de seu casamento com uma mulher de origem cusita (Números 12). Miriã foi castigada, mas Arão novamente não foi disciplinado, talvez por causa de seu cargo de sacerdote”(grifo nosso). Alguns estudiosos encontram nesse argumento, do ser sacerdote, o motivo de Arão não ser também punido.

   Outro motivo apresentado é que neste momento da alegação dos dois irmãos em relação a Moisés é que “A passagem é bastante clara em mostrar que foi Miriã quem iniciou a crítica e que Arão, como sempre, foi mero porta-voz”. No Dicionário Bíblico Wycliffe a frase “... e incitou Arão contra Moisés”, mostra o poder de influência que possuía Miriã. Possivelmente, diante desses argumentos, podemos concluir que Arão não recebeu o mesmo castigo de sua irmã mais velha por ter uma posição diante do povo que lhe conferia autoridade, mas também uma grande responsabilidade dada por Deus, e também, neste último caso, ter sido Miriã a pessoa responsável pelo levante contra o líder Moisés, o irmão mais novo.   

 

O PECADO COMETIDO

   Por que uma mulher tão destemida, sabedora do amor, do zelo, do poder e da justiça de Deus, pecaria? Assim como qualquer um de nós, Miriã também era humana e passível de erros. O que ela não queria compreender é que estava sob a autoridade de um homem escolhido diretamente por Deus, embora ele fosse o mais novo dos irmãos. Porém essa situação não deveria torná-la inferior ao seu irmão, esqueceu-se ela de que o Senhor a usara para que Moisés pudesse chegar à posição que agora ocupa, foi ela quem acompanhou o irmãozinho ao longo do rio até que fosse achado pela princesa egípcia. A sua função na história de Moisés, e podemos dizer na vida do povo hebreu, foi fundamental. Por que então tomara essa atitude de se revoltar contra o líder do povo de Israel? Afinal já há muito Moisés estava à frente da liderança do seu povo, e a sua autoridade fora dada por Deus!

   Infelizmente, o homem muitas vezes na sua fraqueza de caráter questiona o modo como o Senhor opera. Se compreendermos que não sabemos quais são os planos de Deus, mas com certeza são os melhores, de nada reclamaremos.  Podemos compreender isso nas palavras do Pastor Claudiney e da Diaconisa Patrícia: “Sob os princípios bíblicos, a maneira que o Senhor Deus exerce Seu governo sobre o homem e toda a obra de Suas mãos define o mais absoluto princípio de autoridade. Portanto é claro que nos submetermos à autoridade não nos torna inferior, menor que ninguém, pelo contrário, submissão quando necessária, demonstra sinal de caráter”. Então Miriã teve inveja de seu irmão mais novo, Moisés.

    A inveja é um dos pecados que demonstra, por parte de quem a sente, incapacidade, inferioridade, cobiça, raiva e tristeza. Apresenta alguém que quer ser o que não é ou ter o que não tem.


A inveja é um princípio ativo de hostilidade dirigido maliciosamente a um aspecto de superioridade - real ou suposta - de outra pessoa. Originou-se da fracassada tentativa de Satanás de usurpar os atributos divinos (Isaías 14:12-20), Eva absorveu esse pernicioso pecado ao ceder às insinuações de Satanás (Gênesis 3:4-7). A inveja foi causadora do primeiro assassinato (Gênesis 4:5). Seu aspecto mais hediondo aparece em Raquel (Gênesis 30:1), nos irmãos de José (Gênesis 37, cf. Atos dos Apóstolos 7:9), em Saul (1 Samuel 18:8), e em Israel (Salmos 106:16). Ela até instigou os líderes judeus a entregarem Jesus a Pilatos (Mateus 27:18; Marcos 15:10). A palavra grega phthonos, que designa “inveja” em todas as passagens, possivelmente exceto em Tiago 4:5 caracteriza a natureza humana (Romanos 1; Tito 3:3) e a “carne” (Gálatas 5:19-21). Sua manifestação entre os cristãos é proibida (Gálatas 5:26; 1 Timóteo 6:4; 1 Pedro 2:1). A palavra grega zelos (“zelo”), embora muitas vezes justamente motivado (2 Coríntios 7:7-11; 9.2) pode, quando mal direcionado (Romanos 10:2; Filipenses 3:6), tornar-se facilmente em inveja (Atos dos Apóstolos 13:45; 17.5; Romanos 13:13; 1 Coríntios 3:3; 2 Coríntios 12:20; Tiago 3:14-16)”.

 

QUAIS AS CAUSAS PARA SE COMETER ESTE TIPO DE PECADO?

Foco errado. Há muitas situações, pessoas, que nos tiram do foco. Assim como aconteceu com Pedro em Mateus 14 podemos facilmente sucumbir caso não permaneçamos olhando para Jesus. Há empregos melhores que o nosso, casas mais belas que a nossa, carros mais potentes que o nosso; situações familiares, conjugais, profissionais, melhores do que a nossa, porém se nós nos detemos e nos remoemos com problemas ou coisas, é fácil perder o foco certo, que é em Jesus.

• Sentimento de inferioridade. Isso diz ao Senhor: Deus, não estou satisfeito com o que o Senhor tem me dado, ou não me sinto bem com a maneira como o Senhor me criou, porque vejo que o que os outros têm é melhor do que o que eu tenho.

• Ingratidão. Quando se é grato, não há espaço para a inveja ou qualquer outro tipo de pecado. Quando somos gratos a Deus, tudo o que Ele nos faz ou nos dá é bom, ou é para o nosso bem. Nascemos nus, sem nada, e nada levaremos quando morrermos, então do que reclamar?

• Caráter deformado. Sabemos que uns têm muito, outros têm menos; nem todos têm as mesmas coisas, mas coisas diferentes; somos inclusive diferentes uns dos outros, cada um com suas específicas qualificações. Por isso não podemos cair na armadilha das comparações (foi assim que Eva se encantou, pois seria como Deus!).


“No lugar do contato com o ser interior predomina a sensorialidade da inveja. Como se manifesta essa sensorialidade? Inicialmente o sujeito invejoso encontra um obstáculo ou sente uma perda na obtenção de um bem, favorecimento ou vantagem que ele desejaria ter, porque acredita ser importante ou legítimo tê-lo, mas que lhe é negado. Alguém mais, que não seja ele, é detentor da condição ou privilégio que lhe falta. Uma falta que ele experimenta com desgosto, tristeza, irritação ou aflição, porque implica desqualificação, humilhação e inferioridade Esse sentimento de impotência (eu não tenho, ou eu não sou assim e gostaria de sê-lo) torna a pessoa amargurada. Se temos o Criador como nosso Pai, o que nos faltará?

 

QUAIS AS SUAS CONSEQUÊNCIAS?

   Todo pecado tem suas consequências. Umas ruins, outras piores. Logo o pecado da inveja não é diferente. Percebemos também que invejar magoa principalmente a pessoa invejosa. É ela quem fica ruminando, cismando, matutando por que o outro tem aquilo, ou por que o outro é assim e ela não é. Há um sofrimento calado, contido, raivoso, consumidor. Há alguns versículos bíblicos que identificam as consequências de se ter inveja, vejamos alguns deles: “O ressentimento mata o insensato, e a inveja destrói o tolo” (Jó 5:2); “O coração em paz dá vida ao corpo, mas a inveja apodrece os ossos” (Provérbios 14:30); “Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’” (Marcos 7:21-23); “Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males” (Tiago 3:16 – NVI, grifo nosso).

   A inveja destrói, apodrece, suja, confunde. Para Miriã, após o Senhor afastar-se, ela sentiu a consequência de sua má atitude: “...também a nuvem se retirou de sobre a tenda; e eis que Miriã se tornara leprosa, branca como a neve; e olhou Arão para Miriã e eis que estava leprosa” (Números 12:10). Ela precisou sair do meio em que vivia e ficar reclusa por sete dias, isso porque seu irmão mais novo, Moisés, líder do povo de Deus, intercedeu por sua irmã, clamando ao Senhor que a curasse, então Deus concedeu-lhe o retorno somente depois de sete dias afastada de seu povo. Por causa de Miriã, o povo também teve que ficar retido naquela região até que Miriã voltasse, pois todos a esperavam. Na Sua misericórdia, Deus concedeu graça à irmã de Moisés, ouviu-lhe a oração e o atendeu, contudo essa passagem histórica da profetisa marcou um momento de insensatez de Miriã, que pode acontecer com qualquer um de nós, se não estivermos “vigiando-nos” a nós mesmos.

 

COMO É POSSÍVEL EVITAR A INVEJA?

   Como é possível evitar o pecado? Algumas situações que acontecem em nossa vida são impossíveis de serem evitadas; outras, não. Há situações que nós produzimos, tanto para o nosso bem, quanto para o nosso mal. Embora a inveja seja um pecado que acompanha o homem desde sua infância, não há homem que nasça “torto” que não possa tornar-se reto pelo poder do sangue restaurador de Cristo Jesus. O pecado da inveja traz muito mal ao homem, vejamos algumas considerações sobre isso: “Considerada uma disposição de espírito, a inveja foi definida por Spinoza (1999) como “o ódio que afeta o homem de tal modo que ele se entristece com a felicidade de outrem e, ao contrário, se alegra com o mal de outrem” (p. 316). Geralmente ela diz respeito ao desejo de possuir ou gozar o que é possuído ou gozado por outrem (Houaiss e Villar, 2001). O invejoso sofre por aquilo que lhe falta, ainda quando se alegra com o sofrimento alheio”.

   Todavia podemos, sim, evitar tão grande dor psicológica! A Palavra tem remédio para todos os nossos males: “Não se revolte por causa dos maus, nem tenha inveja deles. “Os pecadores não têm futuro; eles são como uma luz que está se apagando” (Provérbios 24:19-29 - NTLH), vamos nos lembrar que nós, cristãos, estamos cada vez mais próximos da luz, que é a vida eterna na presença do Senhor, enquanto aqueles que desprezaram o Filho de Deus estão se esvaindo, perdendo o fôlego de vida. “De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos”  (1 Timóteo 6:68 - NVI), difícil aceitar isso? Sim, é. Sempre queremos mais e mais, quase sempre nos esquecemos do Salmos 23 verso 1, não é mesmo?

   E por fim, “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”  (1 Coríntios 13:4-7 - NVI). O Espírito do Senhor nos mostra a melhor maneira de vivermos esperando a volta do Filho de Deus, mas como nosso tempo é diferente do tempo do Pai, “achamos” que Ele está demorando e nos distraímos com coisas que nos levam para o fundo do mar, “achamos” que não estamos completamente a salvo na presença de Jesus, que precisamos de nos cercar da “nossa força”, do “nosso conhecimento”. Com Cristo no barco, por que não nos deitarmos e descansarmos n’Ele? Que eu saiba, Ele ainda é e sempre será o mesmo Senhor de Davi do versículo 1, do Salmos 23!

 

APLICAÇÃO

• Primeiro, vamos nos lembrar de que a inveja só nos causa dor e desgosto, e que o mal atinge a nós mesmos.

• Segundo, todo pecado nos afasta do Senhor, enquanto estou preocupado negativamente com os outros, invejando-os, não deixo espaço em minha vida para a atuação do Espírito de Deus, que habita em mim para me lembrar de todas as coisas. “Tenho dito isso enquanto estou com vocês. Mas o Auxiliador, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo o que eu disse a vocês” (João 14:25-26 - NTLH).

• Terceiro, precisamos ser gratos pelo que temos e pelo que somos, temos o necessário e somos filhos do Altíssimo, e tudo isso por misericórdia do Senhor que nos amou pela Sua graça.

 

CONCLUSÃO

   Podemos ser felizes, ou infelizes, nós assim decidimos. O cristão decidirá ser feliz, pois é uma recomendação de Cristo Jesus quando nos disse para termos bom ânimo, “Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33). O pecado da inveja não nos dá bom ânimo, bem ao contrário, tolhe a nossa alegria, a nossa força de viver, pois estaremos querendo viver a vida do outro, usufruir das coisas que não temos. Se então formos agradecidos a Deus, de que mais necessitaremos se Ele é quem cuida de cada um de nós? O que temos a fazer é valorizar o que somos e o que temos e quem luta por nós e nos sustenta e nos guia com poderosa mão, nosso Deus e Pai! .

 

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO EM CLASSE


1. Embora Arão tenha sido citado em Números 12 quando do questionamento de Miriã em relação a só Moisés ser o porta-voz do Senhor, Arão não foi punido. Explique o porquê.

R.

2. Por que as pessoas sentem inveja?

R.

3. Além da profetisa Miriã, que outros personagens bíblicos sentiram inveja?

R.

4. Quais as consequências desse pecado tão danoso, a inveja, a si mesmo e aos outros?

R.

5. Você já percebeu em sua igreja algum sentimento de inveja entre alguns irmãos? Se já, algo foi feito para se eliminar este pecado do meio da igreja, noiva de Cristo?

R.

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