Então o SENHOR olhou para ele, e disse: Vai nesta tua força, e livrarás a Israel das mãos dos midianitas; porventura não te enviei eu?    

Juízes 6:14 

 

 

INTRODUÇÃO

Quarenta anos, este foi o período de paz que Israel gozou após serem libertos da opressão dos cananeus. Mas, mais uma vez o povo de Deus fez o que era mau perante os olhos do Senhor. Ao que parece, os israelitas se prostituíram com os deuses dos povos pagãos e passaram a temer estes deuses e prestar-lhes culto (Juízes 6:10 25). Por causa disso, o Senhor entregou-os sob o domínio dos midianitas. Durante sete anos, Israel foi duramente oprimido, mas caiu em si e clamou a Deus (6:7) e mais uma vez o Senhor escutou o clamor do Seu povo e levantou outro libertador: Gideão. O estudo de hoje vai discorrer sobre este juiz que não queria ser um libertador, mas que quando deixou-se ser usado por Deus, foi um instrumento de libertação para o povo oprimido.

 

OS INIMIGOS

Desta feita quem passou a oprimir o povo de Israel foram os midianitas: “Fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor; por isso, o Senhor os entregou nas mãos dos midianitas por sete anos.” (Juízes 6:1). Mas quem eram eles? Vejamos:

Os midianitas eram uma tribo nômade que habitava uma região no deserto da Arábia a leste do mar Morto e das fronteiras de Moabe e Edom. Cinco famílias de midianitas eram descendentes de Abraão e Quetura (Gênesis 25:2-4). Os midianitas estavam entre aqueles que foram enviados a Balaão para fazer com que ele amaldiçoasse Israel (Números 22:4-7). Enquanto se encaminhavam para Canaã, os israelitas mataram cinco reis de Midiã (Números 31:8), pilharam toda uma região (Números 31:10-11) e assassinaram a população masculina e todas as mulheres casadas (Números 31:17). Portanto, as invasões midianitas sobre Israel no tempo de Gideão eram motivadas não apenas pelos despojos que eram tomados, mas por um desejo de vingança contra os israelitas. No contexto do texto estudado, os midianitas não eram um povo organizado como uma nação ou reino. Eram um “bando” que havia se unido com os amalequitas e os povos do Oriente. O que tornou a situação mais grave é que eles eram um povo que Israel tinha subjugado anteriormente e, de alguma maneira, destruído (Números 31:7); no entanto, neste momento, cerca de 200 anos depois, os pobres remanescentes deles se multiplicaram tanto que se tornaram um flagelo muito severo para Israel.

Isso é impressionante, como um povo que outrora foi humilhado e subjugado e praticamente extinto por Israel passou a oprimir ferozmente o povo de Deus? Isso ocorreu porque Israel virou as costas para o seu Deus. Assim o Senhor prova que Ele pode fazer da criatura mais desprezível um gigante opressor para aqueles que Lhe desobedecem. Os midianitas que outrora foram saqueados, agora saqueiam; que antes foram dominados; agora dominam e que antes foram oprimidos, agora oprimem.

 

GIDEÃO: LIBERTADOR E JUIZ

A situação em Israel estava crítica. O povo estava apavorado, tomado de medo. Eram encarcerados em sua própria terra (6:2). A situação em que Gideão se encontra quando o anjo do Senhor lhe aparece descreve bem o pavor que o povo se encontrava: “...e Gideão, seu filho, estava malhando trigo no lagar, para o pôr a salvo dos midianitas”. (6:11). A situação estava tão drástica por causa da opressão dos midianitas que Gideão estava escondido malhando o trigo no lugar onde se pisavam as uvas, isso para não levantar alguma desconfiança do seu inimigo que poderia aparecer e roubar todo o seu alimento.

Gideão era da tribo de Manassés, e sua família era a mais pobre daquele clã. Em seu diálogo com o anjo, Gideão coloca todas estas fraquezas diante do Senhor e acha-se inapto para ser o libertador do seu povo. Entretanto, é exatamente quando o homem se torna cônscio de sua própria fraqueza, das dificuldades da situação, que o Senhor o toma e o usa. O homem que confia em sua força inata provavelmente não pedirá a graça de Deus, nem Lhe dará glória por qualquer coisa que atinja. O Senhor não viu Gideão apenas como um homem fraco e medroso que era, mas o viu como alguém que poderia ser: forte, resoluto e corajoso.

Gideão fica em dúvida em relação à mensagem que recebera “daquele homem”. Sua fé estava abalada e não era por menos, há sete anos ele e seu povo sofriam nas mãos dos midianitas. Onde estava o seu Deus, aquele de quem ele ouvia as histórias impressionantes contadas pelos seus antepassados? Ele estava ali, na frente de Gideão, e com um toque consumiu a oferta que lhe foi apresentada. Naquele instante, Gideão percebeu que estava na presença de Deus. Temeu morrer por isso, mas Deus lhe disse: “Paz seja contigo! Não temas! Não morrerás” (6:23).

 

A PRIMEIRA MISSÃO

Em sua primeira carta Pedro diz que o juízo de Deus começa pela Sua casa (4:17). Parece que não foi diferente com Gideão. O juízo de Deus sobre os idólatras começaria com Seu povo, pois a idolatria estava impregnada em Israel e o pai de Gideão era um dos que precisavam entender que só havia um Deus. A situação na casa de Joás descreve bem a religião sincretista que havia se implantado em Israel. Ele não era um incrédulo em Javé, pois seu nome significava “Javé me deu”, mas em sua casa havia um altar dedicado a Baal e também um altar a Azera (poste ídolo ou árvore sagrada). Joás é o fruto do meio em que vivia. Ele conhecia o Senhor, pois havia instruído seu filho Gideão sobre os feitos de Deus no passado (6:13), mas com o passar do tempo e sob a influência dos costumes canaanitas passou a cultuar outros deuses. Joás tornou-se um fruto do meio que vivia, assim como infelizmente muitos cristãos o são. São moldados pelos costumes mundanos, esquecendo-se do conselho do apóstolo Paulo: “E não vos amoldeis ao sistema deste mundo, mas sede transformados pela renovação das vossas mentes” (Romanos 12:2 KJA).

A primeira missão de Gideão não foi muito fácil. Enfrentar a própria casa não é uma missão fácil para ninguém. Sua ordem era destruir o altar que seu pai havia edificado, cortar o poste-ídolo e com a lenha do mesmo oferecer em holocausto o segundo boi. No contexto da religião que cultuava Baal o boi era o animal sagrado dos cultos de fertilidade, ou seja, separados para ocasiões específicas.

Gideão pôs em prática a ordem de Deus e sua ação alvoroçou a cidade. Ao saberem o que ele havia feito, os homens daquela região (que havia sido tomada pela idolatria) quiseram matar Gideão, mas seu pai se impôs e disse: “Contendereis vós por baal? Livrá-lo-eis vós? Se é deus que por si mesmo contenda; pois derribaram o seu altar” (6:31). Estas palavras não são apenas argumentos de um pai querendo livrar o seu filho da morte, mas elas testificam a fé de um homem sendo posta em xeque. Joás percebeu que os deuses que ele adorava não passavam de imagens de barro e madeira.

Essa primeira missão de Gideão nos ensina que a mudança começa primeiro em nós. A evangelização começa na nossa família. A primeira missão no combate ao pecado inicia-se dentro de casa. A limpeza espiritual começa na igreja. Não podemos nos sensibilizar com a decadência espiritual do mundo sem nos sensibilizarmos com o esfriamento que muitas vezes começa em nosso coração.

 

A SEGUNDA MISSÃO

Na sequência do texto, o narrador do livro de Juízes informa que os midianitas haviam se reunido no vale de Jezreel para o ataque anual a Israel (6:33). Era o tempo da colheita (6:11), então como haviam feito nos anos seguintes, os inimigos estavam se preparando para o saque, e como sempre eles estavam em numerosa multidão (6:5; 7:12).

Gideão convoca algumas tribos de Israel para a batalha (os efraimitas ficaram de fora, o que ocasionou certa confusão mais tarde). Antes de se por em posição para batalha, Gideão mais uma vez (na verdade duas) pede um sinal para o Senhor como prova de que Deus o usaria para livrar Israel (6:36-40) e Deus mais uma vez confirma para ele a promessa feita anteriormente (6:16). Das tribos convocadas para batalha, 32 mil homens se apresentaram.

Quando todos estavam acampados preparando-se para a batalha, Deus aparece a Gideão e agora o Senhor é quem põe Seu povo à prova. O Senhor disse que havia muita gente para aquela guerra, pois Israel ao ganhar a batalha gloriar-se-ia e diria que foi com sua própria força que obtiveram êxito sobre o inimigo. Então Deus prova os guerreiros do Seu povo de duas formas:

Os tímidos e medrosos não eram bem vindos: Deus não estava impondo um jugo sobre os guerreiros. Era dever de todo homem combater pelo seu povo, mas também havia uma lei a respeito da guerra que dava direito aos medrosos voltarem para casa sem serem penalizados por isso (Deuteronômio 20:8). E 22 mil homens preferiram usufruir do seu direito ao invés de confiar em Deus.

Os desatentos não estão preparados: os 10 mil que sobraram eram corajosos, mas nem todos estavam preparados. Eles foram postos a prova. Foram enviados até o rio para beber água. Apenas os que beberam água levando a mão à boca estavam preparados (como um soldado sempre em alerta) para a batalha. Dos 10 mil apenas 300 foram qualificados.

Mas a prova maior foi para Gideão. Mesmo sabendo do seu chamado e tendo sinais da parte de Deus, ele sempre se estribava na força humana. Quando ele foi para derrubar os altares de seu pai, levou consigo dez homens para lhe ajudar (6:27) e agora no seu segundo desafio reúne um exército de 32 mil homens. Todavia, o homem que sempre provou Deus, agora é posto a prova. É como se Deus dissesse: “Agora Gideão é sua vez de passar no teste”.

Gideão decidiu confiar em Deus e naquela mesma noite Deus provou pela boca do inimigo que a vitória era certa (7:12-15). E assim se sucedeu, Deus pelejou por Seu povo e com Seu povo. E o exército dos midianitas começou a se autodestruir ao romper das trezentas trombetas. Os que sobraram foram perseguidos e mortos à espada.

Deus é maravilhoso. Fiel às suas promessas, por isso não precisamos temer. A timidez não pode ter ocasião em nosso coração. Precisamos ser como soldados sempre alertas, preparados para a batalha. O nosso inimigo é forte, mas Deus é mais poderoso (1 João 4:4). Deus não precisa nos provar mais nada, ele já provou todo Seu amor ao enviar Jesus para nos salvar e espera que nós apenas confiemos nas Suas promessas.

 

 

O TROPEÇO DE GIDEÃO

Ao ler o desfecho da história de Gideão somos questionados: como algo que tinha tudo para terminar bem termina errado?

Após a vitória sobre os midianitas, o cenário muda. O Gideão pós batalha parece não ser o mesmo. Sua vitória animou o povo. Eles queriam que Gideão e sua dinastia governassem Israel. Gideão tinha a oportunidade de concertar o seu povo, remover os deuses que ele mesmo destruiu na casa de seu pai. Mas ele não quis ser rei e tampouco levou o povo a restaurar sua aliança com Deus. Gideão não teve em seu pai um bom exemplo, mas também não foi um bom exemplo para sua casa. O texto diz que ele pediu parte do despojo da batalha para o povo, e do ouro arrecadado fez uma estola sacerdotal e pôs na sua cidade e todo o povo passou a se prostituir ali (8:27). O pecado que ele havia removido da casa de seu pai estava instituído em sua casa. Não basta a nós combater o pecado do mundo, precisamos combater o pecado que está dentro da nossa casa.

Deus foi fiel a Gideão e deu paz a Israel por mais quarenta anos (8:28), mas Gideão não foi fiel às bênçãos de Deus. A ação deste libertador mostra sua ingratidão para com Deus. Gideão era o menor da casa de seu pai e foi posto como maioral de Israel. Ele era o mais pobre do seu clã e tornou-se um dos mais prósperos pela riqueza adquirida pelo despojo. Mas virou as costas para o Senhor.

Uma história que nos constrange, mas uma história que se repete todos os dias quando os filhos de Deus que vivem na luz se esquecem de que outrora foram trevas (Efésios 5:8), que agora são povo, mas esquecem que outrora eram estrangeiros (1 Pedro 2:10), que agora estão firmes na rocha, mas anteriormente viviam no lamaçal (Salmos 40:2).

 

CONCLUSÃO

Deus não está insensível ao clamor dos seus filhos. Não importa quantas vezes caímos, Ele sempre nos ajudará a levantar-nos. Todavia, o Senhor também não faz concessão ao pecado. Ele não divide a Sua glória com ninguém. Como um pai amoroso Ele disciplina Seus filhos sempre que estes erram (Hebreus 12:6). O Senhor permanece fiel às Suas promessas. Ele ouviu o clamor de Israel que estavam oprimidos pelos midianitas e deu livramento através de Gideão. Gideão não permaneceu fiel, mas o Senhor sim, pois é um Deus que cumpre o que diz. O homem sempre falhará, mas Deus jamais.

 

 

 

PERGUNTAS PARA ESTUDO EM CLASSE

1 – Quanto tempo o povo de Israel gozou de paz após a libertação sobre os cananeus? Quanto tempo eles foram oprimidos pelos midianitas até que clamaram pedindo socorro ao Senhor? (Juízes 5:31; 6:1)

R.

 

2 – Quem eram os midianitas? Como foi a história deste povo no passado no que se refere aos embates que teve com Israel? Como esta situação se reverteu e porque isso ocorreu?(Juízes 6:2-6)

R.

 

3 – Quem era Gideão? O que ele estava fazendo quando o anjo o encontrou? Por que Gideão estava fazendo algo tão natural, mas às escondidas? (Juízes 6:11-13)

R.

 

4 – Qual a primeira missão de Gideão e impacto que a mesma causou no povo de sua cidade? O que isso nos ensina? (Juízes 6:25-31)

R.

 

5 –Qual a segunda missão de Gideão? Que lições aprendemos com esse episódio? (Juízes 7:1-8)

R. 

 

6 – Qual a postura de Gideão quando o povo pediu que ele reinasse sobre Israel? Que erro ele cometeu na sequência? Como isso ocorre nos dias de hoje com os cristãos? (Juízes 8:22-28)

R.

 

1 Comentário bíblico Beacon. Josué a Ester. Rio de Janeiro. CPAD, 2012, p.113.

2 HENRY, Matthew. Comentário Bíblico do Antigo testamento: Josué a Ester. Rio de Janeiro. CPAD, 2010, p.117.

3 CUNDALL, Artur E., MORRIS, Leon. Juízes e Rute. Introdução e Comentário. São Paulo. Vida Nova, 1986, p.102.

4 CUNDALL, Artur E., MORRIS, Leon. 1986, p.104.

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