NOSSA DECLARAÇÃO: “Nós, Batistas do Sétimo Dia, consideramos a liberdade de consciência sob a direção do Espírito Santo como essencial à convicção e prática cristãs. Encorajamos o estudo e a discussão aberta das Escrituras. Defendemos a liberdade individual de consciência de procurar entender e obedecer à vontade de Deus. Por isso, não temos um credo obrigatório.”

~ INTRODUÇÃO ~

Os Batistas, em geral, consideram como inalienável a liberdade de consciência. E esta não é privilégio a ser concedido, rejeitado ou meramente tolerado – nem pelo Estado, nem por qualquer outro grupo religioso. É um direito outorgado por Deus. Cada pessoa 'é livre perante o Senhor, em todas as questões de consciência, e tem direito de abraçar ou rejeitar a religião, bem como de testemunhar sua fé religiosa, respeitando os direitos dos outros.

Nós defendemos que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus; portanto, não deve ser coagido por uma autoridade a seguir um caminho espiritual. Ele chamou-nos à liberdade. Jesus Cristo é o grande libertador: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. (João 8:32-36) Diante das autoridades judaicas e de suas ameaças descabidas, o apóstolo Pedro afirmou, categoricamente: “importa, antes, obedecer a Deus que aos homens”. (Atos dos Apóstolos 5:29) Liberdade religiosa é um direito humano, e toda pessoa deve ser livre para estudar as Escrituras, buscando nesses textos a vontade divina para sua vida.

Pretendemos analisar, neste estudo, o que significa a liberdade de consciência e qual a sua importância para nós, como povo de Deus. Veremos também um pouco da História e o princípio do não credo.

~ UM POUCO DA HISTÓRIA ~

Primariamente, a defesa da liberdade de consciência pelos Batistas foi a liberdade de culto. A insistente e forte divisa de nosso grupo religioso é que, em toda a parte, a religião tem de ser voluntária, não imposta, e que não há poder civil ou religioso que com justos direitos possa compelir os homens a adotarem um credo ou uma forma de culto. Ou ainda, exigir-lhes tributo para manutenção de uma organização religiosa a qual não pertençam, ou cujo credo não sigam. Deus só aceita adoradores voluntários.

A chave de leitura desse percurso histórico é o princípio de liberdade, muito caro ao movimento batista dos séculos XVII e XVIII. Já por volta daquela época, esses religiosos sustentavam que os crentes deviam se unir a Cristo e uns com os outros para uma aliança voluntária, tendo liberdade de escolherem os oficiais, recusando qualquer intervenção de uma congregação sobre a outra. Defendiam que o indivíduo não deveria ter a consciência submetida a uma instância religiosa ou secular, mas somente às Sagradas Escrituras. Nenhuma instituição ou organização deveria privá-los desse direito.

À época que nossa denominação principiou, na Inglaterra, havia perseguição religiosa contra quem discordasse da Igreja oficial. Vários homens foram presos por conta da sua fé.1 Por conta disso, nossos predecessores lutaram pelo direito à liberdade de consciência, que foi conquistado a um alto preço. Muitos Batistas do Sétimo Dia foram presos; alguns, condenados à morte, lutando para que eles e as futuras gerações tivessem liberdade para cultuarem a Deus de acordo com suas consciências.

É mister pontuar que o princípio de liberdade de consciência não significa mera tolerância. Segundo Truett, há grande diferença entre tolerância e liberdade. A primeira implica no fato de que alguma coisa injustamente reclama o direito de ser tolerada. A segunda é uma concessão; a liberdade, um direito. A tolerância é simples matéria de expediente enquanto a liberdade é matéria de princípio. Uma é um dom proveniente do homem, e a outra, um dom oriundo de Deus. Ninguém pode exigir que, em nome da liberdade de consciência, toleremos aquilo que Deus não tolera.2

No Brasil, as liberdades de consciência e de crença também foram consideradas conquistas. Os primeiros evangélicos não tinham ampla liberdade. Felizmente para nós, nossa Carta Magna proclama a liberdade de crença, em seu artigo 5º, inciso VI: “...é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e às suas liturgias”.

Sendo assim, de forma secundária, a liberdade de consciência em nossa denominação passou a ser entendida como uma prerrogativa intra-corpus. Ou seja, como uma liberdade, sobre assuntos secundários à salvação, pode-se ter um pensamento divergente.

~ O PRINCÍPIO DO NÃO CREDO ~

Por conta da História, os Batistas do Sétimo Dia sempre foram muito reticentes a qualquer declaração de fé que tivesse teor de credo. Não há, nas nossas igrejas, um credo, ou seja, uma lista do que se pode crer e fazer, ou do que não se pode. Ao se tornar membro, ninguém recebe uma cartilha ou lista de faça e não faça. Pelo contrário, os membros são incentivados a, livremente, estudarem as Escrituras, sob a ação do Espirito Santo, e a buscarem viver de acordo com seus ensinos.

É interessante ressaltar que nenhuma declaração de fé foi encontrada na mais antiga igreja Batista do Sétimo Dia (Mill Yard, Inglaterra, 1650). Da mesma maneira, não houve declaração de fé para a primeira igreja Batista do Sétimo Dia da América (Newport, Estados Unidos, 1671).

Somente em 1835, foi adotada uma “exposição de sentimentos e doutrinas da denominação”. Mesmo assim, tal escrito não foi adotado como uma força controladora; tratava-se apenas de uma exposição dos pontos de vista defendidos pela denominação. A listagem deu origem a uma Declaração de Fé, adotada em 1937. Num esforço contínuo de simplificar, clarificar e verificar os pilares da fé cristã Batista do Sétimo Dia para futuras gerações, a Federação Mundial Batista criou uma Declaração de Fé, em 1991, respondendo a uma crescente diversidade religiosa, num ampliado contexto global.3 Tal documento tem servido de base para que cada conferência, em cada país, redija a sua declaração.

~ LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA ~

“União” é uma palavra muito apreciada e valorizada pelos cristãos. Contudo, o seu simples uso acaba não revelando todas as implicações envolvidas para que a tal união exista. Ser um grupo unido é bom, mas não é fácil construir uma unidade. Boa parte dessa dificuldade reside no fato de que as pessoas não pensam e agem da mesma forma, em todas as situações. A questão não é saber se elas discordarão, pois sabemos que isso ocorrerá. A complicação surge quando se pensa “no que discordarão” e “por que” o farão.

No começo do Cristianismo, os primeiros convertidos vieram do Judaísmo. Em seguida, a pregação do Evangelho rompeu as barreiras étnicas, e a conversão dos não judeus foi uma consequência lógica. A Igreja de Jesus Cristo era (e seria) multiétnica.4

A multietnicidade representava avanço e também um desafio para uma Igreja em franco crescimento. No que os cristãos deveriam crer de igual modo? Em que poderiam discordar, sem que fosse rompido o lacre da unidade? E os cristãos atuais, eles também enfrentam algo semelhante?

A “liberdade de consciência”, além de ser um princípio bíblico, é um dos códigos de fé da Declaração de Fé dos Batistas do Sétimo Dia. Isso indica que acreditamos que podemos/devemos ser unidos no essencial, promovendo a liberdade no que não é essencial.5

Essa declaração assegura-nos a liberdade total de buscarmos a vontade de Deus para nossa vida. Com isso, pode acontecer certa divergência de pensamento; e essas diferenças somente podem ocorrer em assuntos secundários à salvação. A liberdade não dá ao membro o direito de pensar como bem entender. Há assuntos que fazem parte de nossa coluna dorsal de crenças, os quais todos devem professar e aceitar. Essa base de convicções comuns está expressa na Declaração de Fé, e principiamos o estudo com a questão da liberdade de consciência.

Nos assuntos não abordados por nossa declaração, temos a liberdade de discordar, de pensar diferentemente. No entanto, é preciso enfatizar que a liberdade individual de crer em alguns aspectos, diferentemente dos outros membros, não permite a prerrogativa de pregar ou forçar os demais membros a abraçarem a mesma convicção.

Conquanto seja algo fundamental em nossa fé, a liberdade de consciência pode ser mal interpretada, pois ela não nos permite crer ou fazer o que quisermos. Temos liberdade para buscar nas Escrituras a base para nossa fé e prática. Não temos um credo engessado e incentivamos cada um a ler e examinar a Bíblia. Há assuntos fundamentais dos quais não abrimos mão; e um exemplo é quando afirmamos que a salvação ocorre somente pela graça por meio da fé na obra de Cristo, ou que o sábado é o dia santificado por Deus e, por isso, devemos guardá-lo. No entanto, há outros assuntos os quais cada um tem a liberdade de seguir ou não; são temas que consideramos secundários, ou seja, não vitais à salvação.

Ao estudarmos a Epístola aos Romanos, percebemos que os irmãos da Igreja de Roma enfrentavam, como qualquer outra comunidade de fé, os desafios da rotina da comunhão. Em relação à fé na pessoa e no ministério de Jesus, pensavam unanimemente. Quanto a outras questões de fé, já não se podia dizer o mesmo; havia divergência acerca de leis alimentares, por exemplo. Isso, de pronto, revela as tensões geradas na relação entre judeus convertidos ao Cristianismo e gentios oriundos do Paganismo. Alguns tinham a posição de não comer carne, tomar vinho e comemorar dias religiosos; outros se posicionavam de forma contrária. Depois de haver falado sobre pontos tão cruciais da fé cristã, ao longo da epístola, Paulo detém-se naquilo que podemos chamar de pontos secundários de fé. Ou seja, assuntos em que os irmãos podiam tomar posições diferentes sem que isso, necessariamente, afetasse a salvação do indivíduo.6

Dessa forma, enfatizamos que cada membro pode exercer o privilégio do livre e responsável exame da Palavra de Deus. Apreciamos uma leitura piedosa e respeitosa da Bíblia. Outrossim, cremos que a Bíblia é sua melhor intérprete; não se contradiz e se complementa. É Palavra divina, revelação progressiva de Deus e de Sua vontade, escrita por seres humanos inspirados pelo Espírito Santo, que respeitou as peculiaridades de suas personalidades e da estrutura cultural de cada tempo, sem haver perda de sua extraordinária unidade. O Espírito Santo, hoje, não mais inspira novas verdades, mas ilumina as mentes dos que leem a Bíblia com fé a fim de compreenderem as verdades já reveladas.

~ CONCLUSÃO ~

Não devemos esquecer, como esteio sólido de nossa denominação, a liberdade de consciência e a liberdade de culto, porque é assim que podemos proclamar a mensagem redentora de arrependimento, de perdão dos pecados, de regeneração e da salvação que só Jesus Cristo veio trazer para o homem indistintamente, sem olhar sexo, cor, condição social, ou política, ou cultural, ou econômica. Que possamos aproveitar a liberdade que foi duramente conquistada pelos antepassados para proclamarmos o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo a toda a criatura. Exercitemos também o amor, ajudando ao próximo, como consequência do nosso amor a Deus.

Agostinho, de Hipona, recomendou aos cristãos buscarem, “no essencial, unidade; no não essencial, liberdade; e, em ambas as coisas, o amor”. Que tenhamos divina unidade nas convicções fundamentais de nossa fé. Que exercitemos e desfrutemos, responsavelmente, da liberdade de consciência e que sejamos amáveis em tudo no trato com o semelhante.

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