E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha anunciado lhes faria, e não o fez.    

Jonas 3:10 

  MAS isso desagradou extremamente a Jonas, e ele ficou irado.    

Jonas 4:1 

INTRODUÇÃO

   Jonas tem sido considerado o mais controverso dos profetas, foi o único pregador que desejou ardentemente que sua mensagem não tocasse o coração de ninguém. Estudar sobre esse profeta é a oportunidade de nos enxergarmos através dele. Na presente lição traremos algumas considerações sobre seu pecado, suas causas, suas consequências e também algumas considerações sobre como nos prevenirmos para não cairmos em semelhante pecado. Mas antes, um breve resumo sobre questões introdutórias ao Livro e ao Profeta. Quem foi o Profeta Jonas? O próprio livro o identifica como sendo filho de Amitai. Estudiosos mais conservadores aceitam que este Jonas é o mesmo que aparece em 2 Reis 14:25. Ele era de Gate-Hefer, localizado no território de Zebulon, atual Galileia, viveu nos dias de Jeroboão II (786-776 a.C),em Samaria, e foi contemporâneo do profeta Amós. No Antigo Testamento, ele aparece apenas em 2 Reis e no livro que leva o seu nome. Jonas só volta a ser mencionado em o Novo Testamento nos Evangelhos de Mateus 12:38-41 e em Lucas 11:29-30, quando Jesus faz menção a ele. Embora possa haver objeções quanto ao fato de Jonas filho de Amitai ser o personagem do presente livro elas não se mostram consistentes.

   Quanto ao “Livro de Jonas”, sua autoria é desconhecida, pode ter sido o próprio Jonas, mas sem muita consistência essa afirmação. A obra foi escrita em algum período entre 786 a 612 a.C.  Existem pelo menos quatro possíveis interpretações: Alegoria, Midrash, Parábola e Narrativa Histórica.  Alguns o interpretam como sendo uma alegoria, “toda característica tem um elemento correspondente na experiência de Israel, Jonas representa a nação, sua fuga representa a negação de sua missão junto aos povos, o navio no mar é o navio da intriga diplomática no mar do mundo, os marinheiros são os gentios, a tempestade é a transferência do poder da Assíria para a Babilônia, o peixe é o exílio e o vômito de seu corpo é o seu retomo”42. Outros já o veem como uma midrash, é basicamente uma explicação expositiva das Escrituras, “quando aplicada a Jonas, essa abordagem trata o livro como comentário sobre passagens como Ex. 34:6,7”43.

   É muito comum também interpretar esse livro como sendo uma parábola, um relato breve e fictício, que ilustra verdades morais, religiosas e espirituais, mas não necessariamente os fatos tenham ocorrido de verdade. Esse livro deve ser entendido como uma narrativa histórica. Além das características de uma literatura histórica (personagem central, narração fidedigna de acontecimentos reais) temos apoio da tradição judaica que o considerou como sendo uma narrativa histórica autêntica. Mas o que dá mais credibilidade histórica ao livro é o fato de Jesus o citar em Seus ensinos como sendo uma história real, para um público que também cria dessa maneira (Mateus 12:38-41). Assim, na presente lição consideramos que se trata de uma narrativa histórica, cujo personagem é Jonas, filho de Amitai, o mesmo que viveu e profetizou nos dias de Jeroboão II. Confirmamos sua historicidade com base em vários estudiosos, e sobre tudo no testemunho do próprio Jesus Cristo a seu respeito. 

 

O PECADO COMETIDO

   Jonas cometeu, a priori, o pecado deliberado de ir em direção oposta a que Deus havia lhe ordenado. Vejamos como isso é descrito: “Veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ele, porque sua malícia subiu até mim. Jonas se dispôs, mas para fugir da presença do SENHOR, para Társis,; e, tendo descido a Jope, achou um navio que ia para Társis,; pagou, pois, a sua passagem e embarcou nele, para ir com eles para Társis,, para longe da presença do SENHOR”. (Jonas 1:1-3).  Mas seu ato de rebeldia trouxe desdobramentos em outros pecados também. Embora a palavra “pecado” não apareça de forma explícita no livro de Jonas o pecado em si é algo bem presente. Vajamos:

   Primeiro temos o pecado da não obediência. (1:3). A construção do texto é até irônica, disse Deus “dispõe-te e vai para Nínive”, e Jonas se “dispôs”, mas para fazer o contrário, e foi para Társis, com a intenção de “fugir da presença do Senhor”. Ele caminha cerca de 80 km até chegar a Jope ( atual Telaviv) e por sua livre e espontânea vontade compra uma passagem e embarca para a direção oposta, Társis! O local mais longe e distante da época, outro extremo, todos os verbos que indicam ação de Jonas denotam uma disposição em fugir, ele se “levantou”, “desceu”, comprou”, “embarcou”.

   Társis aparece três vezes em Jonas 1:3 tal ênfase tem razão de ser, pois indica a intensão do profeta em se esconder onde jamais poderia ser encontrado, e assim não levaria mensagem alguma aos ninivitas. Existem algumas possibilidades quanto à localização de Társis: Tartessus, (no sudoeste da Espanha), a Ilha de Sardenha (conforme inscrição fenícia do séc. IX a.C), Cartago, (no Norte da África) e Tarso, na Anatólia, que mais tarde foi a cidade de nascimento do Apóstolo Paulo (atual Turquia). No entanto, alguns estudiosos acreditam que Társis não se refere (a priori) a uma cidade ou localização específica, mas sim é uma forma de dizer “mar aberto”, se assim for, a intenção do texto é dizer que Jonas partiu mar a fora, essa última teoria tem apoio de Jerônimo, um dos pais da Igreja, que viveu de 331-414 d.C. Também tem apoio interno do próprio livro de Jonas, em 1:9 quando ele se apresenta como sendo “hebreu”, pois entre os demais povos este termo era visto não como grupo étnico, mas era usado para designar aqueles que eram imigrantes, sem terra, assim ele se diz apenas um viajante, que se move, que anda, que está a caminho, mas sem especificar um destino certo. Seja Társis uma cidade ou porto específico, ou ainda figura de linguagem, o fato é que a intenção de Jonas era ficar o mais longe que pudesse de Nínive. 

   Segundo, o pecado da displicência (1:4,5). Jonas demonstra profunda falta de interesse no que ocorria ao seu redor, conseguiu dormir sono profundo (na septuaginta diz que ele “roncava”) enquanto o munda desabava sob seus pés e vidas corriam risco devido a um caos que ele mesmo provocara. Ele já havia demonstrado total falta de apatia e interesse quanto aos ninivitas, agora o desespero dos marinheiros e uma embarcação à beira de um naufrágio não parecem mexer com suas emoções. Essa sonolência e inercia têm raízes profundas em um sentimento de “não estou nem aí”, desde que eu possa continuar em meu conforto, sigo a vida como se nada tivesse a ver comigo.

   Essa foi a atitude de Jonas, enquanto era profeta entre os seus, tudo estava normal, falar de Deus aos seus compatriotas ele aceitou, mas aos “estrangeiros” lhe seria demasiadamente penoso. Tal atitude encontra sua reprovação bíblica em Tiago 4:17 “portanto, aquele que sabe fazer o bem e não o faz nisso está pecando”. Jonas sabia que anunciar a palavra de Deus em Nínive resultaria em bênção (Jonas 4:2), resultado este que ele não queria. Ainda encontramos ecos nas palavras de Paulo “ai de mim se não pregar o evangelho” (1 Coríntios 9:16b), ainda “quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas” (Romanos 10:5b). Escolher, de forma deliberada e consciente, um caminho que possa privar os outros de terem acesso à mensagem salvadora de Deus é negar-lhes o maior bem de todos, e nesse aspecto Jonas pecou gravemente contra o Senhor.

   Terceiro, o pecado de não amar o suficiente. Jonas era o retrato dos “filhos do trovão”, apóstolos de Jesus que tiveram audácia de sugerirem que o Senhor destruísse com fogo uma aldeia de samaritanos (Lucas 9:51-56), o mesmo caráter de Pedro, que algumas poucas horas depois de cear com o Mestre ainda arrancou de sua espada e feriu o servo do sumo sacerdote quase o levando à morte (João 18:10), também não era diferente de um certo “Saulo de Tarso” que em seu zelo religioso perseguiu, prendeu e ainda conduziu ao martírio os que professavam fé em Jesus (Atos dos Apóstolos 7:58; 9:1,2; 22:4,5; 26:9-12). A todos estes, alguns de forma explícita, outros implicitamente, mas com a mesma firmeza Jesus adverte “não sabeis de que espírito sois” (Lucas 9:55), e a todos se aplicam a parábola do credor incompassivo (Mateus 18:23-35), que após ter uma imensa dívida perdoada não conseguiu retribuir com perdão a quem lhe devia um valor praticamente insignificante.

   Jonas acabara de ser tirado (por intervenção divina) da barriga de um grande peixe, lugar que ele mesmo descreveu como lugar de morte (2:6), mas agora ele nega misericórdia a uma cidade arrependida, à semelhança do “filho mais velho” (Lucas 15:25-32) ele se nega a celebrar a vida de “mais de cento e vinte mil pessoas” (Jonas 4:11).  “A autoestima e o nacionalismo de Jonas o indispuseram a aceitar as intenções misericordiosas de Deus para com um povo arrependido. Os ninivitas fizeram com que ele ficasse profundamente ressentido com o perdão mostrado àquela cidade. Ver milhares dos inimigos de Israel em busca de Deus, na verdade, enfureceu o profeta. De seu baixo ponto de vista, tudo o que via era que sua predição não se cumprira - portanto, era falsa - e o inimigo nacional de Israel fora poupado. Desgostou-se Jonas extremamente... e ficou todo ressentido. Literalmente: Foi mal para Jonas, e isto [o desgosto] o queimava.”44. Um homem soberbo e ressentido, insensível e vingativo, que se viu no direito de reter apenas para si e os de sua nação a misericórdia e a graça que Deus, que em Seu infinito amor deseja derramar sobre todos os povos. 

 

QUAIS AS CAUSAS PARA SE COMETER ESSE TIPO DE PECADO?

   A pergunta que se faz é exatamente o que leva um profeta a tomar decisões e abrigar em seu coração sentimentos tão contrários ao caráter de Deus? O que conduziu Jonas a pecar? O Novo Testamento nos ensina que toda forma de pecado nasce no coração, no íntimo do ser humano. “Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera morte”(Tiago 1:14-15), Jesus ainda adverte: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, as prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia,  inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem”(Marcos 7:21-23). Assim pode-se listar algumas razões pelas quais um profeta de Deus pecou:     

   Pecou porque era humano. Jonas, igualmente a todos os homens, tinha sua natureza corrompida pelo pecado, bem se sabe que a humanidade herdou a natureza corrompida e pecaminosa de nossos primeiros pais (Adão e Eva).  Essa afirmação encontra sua base bem solidificada em diversas partes das Escrituras: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma alguma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: não há um justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há um sequer” (Romanos 3:9-12), e ainda “Todos pecaram, e destituídos estão da glória de Deus”(Romanos 3:23).

   Embora não seja o foco da presente lição uma discussão teológica mais profunda sobre a universalidade do pecado e a natureza pecaminosa herdada como consequência da queda do primeiro homem “Adão”,(tal discussão já foi feita nas lições 1 e 2, e ainda voltará na lição número 12) se faz necessário ressaltar essa verdade sobre a condição pecaminosa do homem, conforme já se apresenta nas palavras do rei Davi: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu a minha mãe” (Salmos 51:5). Nesse caso “Adão representa toda a raça humana e, em sua queda, caímos com ele e nascemos escravos do pecado[...]. ao herdarmos a culpa e o pecado de Adão, nascemos escravos do pecado e com uma natureza má. Nesse contexto, aprendemos aqui que todas as esferas da humanidade estão contaminadas pelo pecado, o que os teólogos chamam de depravação total.

   A razão, a vontade, os afetos, nossos relacionamentos, o corpo, tudo o que constitui a imagem de Deus com a qual fomos criados agora se encontra debaixo da escravidão do pecado [...], a totalidade da nossa natureza está corrompida pelo pecado, e o pecado corrompe nossa humanidade tanto em extensão, estragando e distorcendo todas as partes da nossa natureza humana, como no nível de ação, corrompendo cada parte de nosso ser”45. Que Jonas, como todo ser humano, era sujeito a pecar é algo óbvio, mas é preciso desconstruir a ideia de que homens de Deus não podem pecar, e se for “pastor”, “apóstolo”, “bispo”, “ungido” e nesse caso um “profeta” (autêntico) estão além dos demais homens, e são por isso “impecáveis” e não são passíveis de erros e falhas. Jonas era, à semelhança do que o apóstolo Paulo auto se descreve, “vendido como escravo ao pecado”. ( Romanos 7:14 NVI).

   Pecou por se recusar a ter uma visão ampla do Deus “de Israel”. Estava preso ao seu nacionalismo e patriotismo que se sobrepunham aos interesses e propósitos de Deus. Uma visão distorcida, embotada, limitada, tinha plena consciência do caráter amoroso e misericordioso de Deus, mas não conseguia ir além das fronteiras de Israel. O sentimento de exclusividade e superioridade étnica é um mal que os homens abrigam no coração, e isso tende a se agravar quando se tem o “aval de Deus”, afinal Jonas vinha de um povo “exclusivo” de Deus, de uma linhagem cujas alianças e promessas divinas lhe pertenciam por direito. Muito esclarecedor o que Caio Fábio diz a esse respeito, ao fazer uma leitura ideológica/política de Jonas, ele escreve:


“ele se deixou encher demasiadamente de ideologia e de um nacionalismo xenófobo, tirando-lhe a perspectiva da grandeza e da universalidade do Reino de Deus. Tal hiper-lotação ideológica lhe roubou a capacitação de discernir a realidade do mundo conforme Deus o vê. Ora, num certo sentido Jonas estava extremamente consciente de seu mundo. O problema era que o mundo do qual ele estava consciente não era o único que existia, nem o único mundo pelo qual Deus estava preocupado. No excesso de paixão pelas lutas históricas de seu povo ele perdera a visão do todo. Tornara-se cativo de uma visão da vida que o cegara para outras perspectivas da intensão de Deus na história. E esta realidade de ter ficado cego a outras intenções de Deus para a história resultou do fato de que sua mente sofreu um encharcamento ideológico”.

 
   Que aprendamos essa lição: Deus não é propriedade de ninguém, Ele é de todos, Sua mensagem de perdão e graça é para todos.

   Uma terceira causa está em seu critério de justiça. Indo do livro de Jonas para o livro de 2 Reis, 14:25, encontramos a atuação de Jonas no reinado de Jeroboão II, um rei mal e perverso, no entanto, o profeta em questão não se mostra nada preocupado em profetizar um reinado de sucesso durante seu governo. Ora, estava “tudo certo”, os desmandos e a tirania de Jeroboão II, que o texto bíblico afirma “fez o que era mal aos olhos do Senhor” (2 Reis 14:24). Para Jonas, em Israel tudo pode ser “justificado”, mas fora de seus limites étnicos e geográficos tudo merece todo o “rigor da lei”, que reis corruptos e maus tenham sucesso em Israel, mas que o Deus “justo” exerça sua “justiça” sobre os ninivitas “pecadores”. Caio Fábio assim explica: “encontramos nele duas categorias de justiça. A primeira é aquela justiça que ele aplicava aos que estavam do lado de fora de Israel, vistos por ele como inimigos dos seus sonhos políticos e nacionalistas. A segunda é aquela que ele aplicava aos que estavam dentro de Israel. Com os que estavam fora das fronteiras de Israel, Jonas não usa o mesmo critério de justiça generosa e graciosa. Para com os que estavam do seu lado, ele era todo generosidade, no entanto, em relação àqueles que não confessavam sua mesma ideologia, ele era todo rigor”47.

   Somos advertidos pelo Senhor quanto a essa forma de “justiça”: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20); “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”.(Jo. 7.24), “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também” (Mateus 7:1-2). Por mais que nossas atitudes possam ser “justificadas” e tenhamos motivações “corretas”, ainda estamos muito aquém de um julgamento justo e que seja dentro dos parâmetros divinos, por isso nosso “critério de justiça” não deve interferir negativamente em nosso papel como servos de Deus, uma vez que nossas responsabilidades podem ser seriamente comprometidas.                 

                                                              

QUAIS AS SUAS CONSEQUÊNCIAS?

   Toda forma de pecado não fica impune, as consequências sempre virão, e com Jonas não poderia ter sido diferente. Nesse caso, tais consequências foram além do que Jonas poderia prever (aliás quase nunca podem ser previstas).

   Um mar em fúria. Os planos até então bem sucedidos de Jonas estavam dando certo, sua descida a Jope e seu embarque foi um sucesso, ele agora estava tranquilo e isento de qualquer responsabilidade, afinal Nínive ficara cada vez mais distante à medida que o navio adentrava mar a dentro, porém seus planos foram frustrados, tudo ia bem, “Mas o SENHOR lançou sobre o mar um forte vento, e fez-se no mar uma grande tempestade, e o navio estava a ponto de se despedaçar” (Jonas 1:4). O profeta que se dispôs fugir de Deus enfrenta agora a fúria da natureza. É uma grande ironia, um profeta em plena rebeldia se vê diante de um mar revolto, pois a natureza se submete ao seu Criador e executa Sua vontade com toda disposição que não se encontra no profeta de Israel. Essa foi a primeira consequência, a natureza protesta contra a desobediência e se coloca como agente de Deus, contra aquele que conhece a Deus e, em plena consciência, foge de suas responsabilidades, Jonas estava disposto a fugir, mas tem um mar a sua espera, pronto a executar a vontade de quem o criou e estabeleceu seus limites (Gn1:10; Provérbios 8:29).

   Ser descoberto (ter que lidar com a exposição de seu caráter). Tudo o que Jonas não queria era que alguém o questionasse sobre o que poderia estar havendo, pois ao que tudo indica os marinheiros não conseguiram prever uma tempestade em alto mar, foi algo repentino. Mas o profeta é subitamente despertado de seu sono e se vê em uma situação onde é forçado a confessar ser ele o responsável por tamanha tempestade. Ele havia se recusado a ser bênção para outras nações, e agora ele traz o caos sobre representantes de várias nações diferentes. “os marinheiros pagãos pareciam saber com muita clareza que ninguém foge de Deus impunimente. A sorte é lançada e o azar é de Jonas. Descobre-se que o homem de Deus era a causa da desgraça. Sua vida atraíra maldição sobre todo o grupo”48.   Foi demasiadamente difícil ter que assumir, à semelhança de Davi “o culpado sou eu”49( 2 Samuel 12:13).

   Ser engolido por um “grande peixe” (a experiência da dor e do abandono). “Deparou o SENHOR um grande peixe, para que tragasse Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe” (Jonas 1:17). Muito tem sido discutido sobre que peixe seria esse, se era um tubarão ou uma espécie de baleia, tanto o hebraico quanto o grego (Mateus 12:40) são genéricos para qualquer criatura do mar que tenha tamanho suficiente para engolir um homem, tal discussão não se faz necessária no momento, mas sim o fato de um “grande peixe” ter sido enviado no exato momento em que Jonas é lançado ao mar. Jonas viveu o inferno em vida, experimentou a angústia e o afastamento de Deus, sua oração no capítulo 2 é o gemido de uma alma aflita, triste, em pavor e medo. Seu clamor brota de um coração atribulado, que teme os resultados de suas próprias escolhas. O pecado nos devora em vida, consome nossa alma, rouba a paz, provoca enfermidades no corpo e na alma, é o maior peso que alguém pode carregar.

   Ficar por um período nas profundezas do mar e ainda engolido por uma criatura gigante foi não apenas um local, mas também um estado de vida, para Jonas era o próprio inferno, a distância agora não era apenas geográfica, mas também existencial. Não se deve esperar outro resultado que não o sentimento de distanciamento de Deus, Aquele que, deliberadamente, o abandona. Jonas queria ficar “longe de Deus”, agora ele pode provar dessa amarga experiência. “Parte de seus temores surgiu do fato de que sabia que estava fora das vistas do Senhor, fora da Sua vontade e fora do Seu favor”50. A descrição que ele faz em 2:8 parece falar de si mesmo, uma vida vazia sempre está à espera de quem escolhe o afastamento. Só após Jonas chorar amargamente é que o “grande peixe” recebe ordens pra devolvê-lo em terra firme, agora o profeta recebe uma segunda chance e novamente a ordem de “ir à cidade de Nínive”. 

 

COMO É POSSÍVEL EVITÁ-LO?

   Como não cair no mesmo erro de Jonas? É possível, na medida do possível, evitar essa mesma transgressão? Há uma passagem que lança luz sobre isso e que tem sido pouco explorada pelos cristãos em geral. “Então, lhe disse o SENHOR: por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gênesis 4:6-7). A princípio, o texto apresentado não parece ter muito a ver com o assunto da presente lição, mas á algo que prende a atenção. Caim acabara de perceber que sua oferta não foi tão aceita quanto a de seu irmão Abel, ele fica ressentido, amargurado e seu semblante cai, sua expressão  facial muda, então o Senhor o previne que ele estava prestes a pecar, havia em seu coração o desejo, na sua visão distorcida ele teria até uma “justificativa”, mas a despeito de tudo estava em seu poder a consumação de seu plano maligno.

   O “pecado jaz à porta” é a figura de um animal selvagem à espreita, esperando a hora certa de devorar sua presa, mas esse animal pode ser domado, conquistado, e se Caim tivesse exercido controle sobre suas ações mesmo que seus pensamentos vagassem por lugares mais sombrios seus atos, não; uma fera domada é sempre uma fera, mas está sob controle de seu domador, o “pecado” que nos ronda é sempre pecado, mas seus efeitos catastróficos são neutralizados se o mesmo não for consumado, lembremo-nos, pois de Tiago 1:15 o que gera morte é o pecado “consumado”, o que está apenas no campo do pensamento é a “fera domada”( isso não quer dizer que bons pensamentos não devem ser cultivados sempre).

   Pois bem, após uma breve explicação sobre Gênesis 4:26-27, voltemos ao tema proposto. Já vimos que toda forma de pecado nasce no coração, o que coopera para que ele se concretize é a nossa disposição, tal disposição não está desassociada de outros fatores como, por exemplo, nossa cultura religiosa, nossa formação acadêmica, a profissão que exercemos, a maneira como fomos educados tanto no contexto familiar quanto no social, enfim, todos carregamos além da genética outros fatores que podem contribuir para que tomemos decisões acertadas ou não. Vimos, por exemplo, no caso do profeta Jonas que ele era humano, e como tal o pecado lhe rondava. Vimos também que lhe faltava visão correta a respeito de Deus (sabia que Deus é misericordioso, mas não olhava além de suas fronteiras). Vimos também que seu critério de justiça era limitado e distorcido. Pelo menos nos dois últimos aspectos pode-se dizer que isso foi sendo construído em sua mente ao longo da vida, as circunstâncias tendem a nos trazer algumas mudanças, umas para melhor, outras nem tanto, e se vivemos em ambiente hostil, a tendência é o endurecimento, o enrijecimento.

   A pergunta então será “o que faremos para não pecarmos (à semelhança do profeta Jonas)”? A princípio, é preciso que nossos anseios mais profundos estejam em sintonia com Deus, para isso é fundamental uma vida de íntima comunhão com o Pai, isso amplia nossa visão a respeito do Reino de Deus. Jonas falhou nisso. Outra forma de nos prevenirmos é cultivar uma vida religiosa saudável, sem extremismos, sem legalismos, tendo o claro discernimento de que Deus não é propriedade nossa, e que em termos de “méritos” não somos em nada diferente de qualquer “pecador” que conhecemos.

   Outra forma de evitar o caminho da desobediência é uma sincera disposição em querer fazer a vontade de Deus, mesmo que para isso meus desejos sejam sacrificados, meus sonhos sejam postos de lado, preciso de vontade (e coragem) para deixar em segundo plano qualquer aspiração que não esteja claramente em acordo com os propósitos eternos de Deus, lógico que isso não significa que devo levar uma vida sem dinamismo, apática e sem graça, sem os labores que são necessários à minha sobrevivência, como pessoa tenho a necessidade de trabalhar, comprar, vender, planejar, construir, etc., isso é parte de nós, mas não se pode ficar preso a nada nessa vida, quando temos o desafio de sermos bênção na vida de outras pessoas, através de um envolvimento que exige um pouco mais do que estamos habituados a fazer. em alguns casos, realizar uma obra na construção de Seu Reino requer decisões mais drásticas da nossa parte, “E, arrastando eles os barcos sobre a praia, deixando tudo, o seguiram” (Lucas 5:11).   

 

APLICAÇÃO

   A partir da leitura do Livro de Jonas ficam as seguintes lições:

• Jamais fuja de qualquer responsabilidade que Deus te der.

• Todas as nações e todas as pessoas são preciosas para Deus e ele deseja que sua Palavra os alcance, e se você for um instrumento para isso sinta-se um privilegiado, faça não gemendo, mas com alegria no coração.

• O valor do arrependimento sincero e verdadeiro. Os ninivitas tinham 40 dias para mudarem sua sorte, e assim fizeram, demostraram verdadeiro arrependimento e todos foram poupados.

• Uma mensagem para levar as pessoas a Deus nem sempre está recheada com frases de amor e graça, a mensagem de Jonas foi uma só: “Nínive será destruída dentro de 40 dias”, sinceramente, que amor você pode ver nessa mensagem?

• Homens de Deus pecam, eles erram e podem fazer até pior que os demais homens, mas por outro lado o pecado não precisa ser o fim de tudo, nem motivo para a desistência, ainda no ventre do peixe Jonas pôde encontrar algumas palavras de arrependimento (mesmo que misturado ao pavor e medo), isso foi o suficiente para que ele fosse ouvido  e salvo da morte.

 

CONCLUSÃO

   O tempo e o propósito da lição não nos permite ir além, por hora ficamos com o que já foi exposto. Caminhar um pouco nas “trilhas de Jonas” nos permitiu perceber que a missão que Deus nos dá requer todo cuidado. Fugir de Deus é perigoso para nossa fé, sempre que escolhemos o caminho oposto ao que Deus nos mostrou, virá consequências nada agradáveis sobre nossa vida. Jonas foi, de fato, um profeta controverso, de personalidade forte, demasiadamente nacionalista, tais fatores tiveram muita contribuição para suas falhas como profeta. Com todas as falhas de Jonas, este homem experimentou um dos maiores milagres, ele foi trazido de volta à vida, após três dias e três noites no ventre de um grande peixe ele vive pra contar história, e ainda pra assistir a Deus derramando misericórdia e graça sobre uma nação pagã, idólatra e muito pecadora, por sua experiência de vida entrou para os ensinos de Jesus como um modelo (um tipo de Cristo) de Sua morte e ressurreição.


QUESTÕES PARA REFLETIR EM CLASSE


1. Quem foi o profeta Jonas?

R.

2. Quais foram os pecados de Jonas?

R.

3. Quais as interpretações sobre a história de Jonas? Como Jesus interpretou o livro de Jonas?

R.

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