E ACONTECEU, depois disto, que andava de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e os doze iam com ele, E algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios;    

Lucas 8:1-2 

A cultura machista predominava no Judaísmo dos tempos bíblicos. Basta uma leitura superficial do Novo Testamento para conferirmos o fato. Porém, também podemos observar outro ponto importante nas páginas neo-testamentárias, mais precisamente nos Evangelhos: Jesus veio para quebrar certos paradigmas, valendo-se de Suas demonstrações de amor. Ao olharmos as atitudes do Mestre, identificamos o amor desprendido aos simples e marginalizados; Sua justiça e misericórdia foram praticadas cabalmente, causando assombro àqueles que O repreendiam e esperavam avidamente para apanhá-Lo em algo condenatório.

A passagem que analisaremos retrata exatamente o comportamento de Jesus e Seu objetivo para com os pecadores.

 

CONTEXTO HISTÓRICO: AS MULHERES NA SOCIEDADE JUDAICA

O termo hebraico ‘ishsha significa “mulher” ou “esposa” e deriva da raiz ‘-n-sh, cujo significado é algo como “ser macia” ou “delicada”. Se observarmos o termo hebraico para homem (‘ish), o qual procede da raiz ‘-y-sh, chegamos ao significado “ser forte”. Com essas informações, podemos ler Gênesis 1:27 e chegar a algumas conclusões. O versículo diz o seguinte: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. (Gênesis 1:27 NVI) O texto bíblico afirma que ambos, macho e fêmea, foram criados à imagem de Deus, e a língua original fornece-nos suas particularidades. Percebemos que homem e mulher têm suas características herdadas do Pai.

Continuando no livro de Gênesis, na ocasião da criação da humanidade, deparamo-nos com algo digno de nota. Já vimos que homem e mulher foram criados à imagem de Deus, mas, no capítulo 2, observa-se a mulher sendo criada a partir do homem. Paulo, em sua primeira carta aos coríntios, diz: “o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem”. (1 Coríntios 11:9 NVI) Essa valiosa informação alerta-nos para outro versículo de Gênesis: “Então o Senhor Deus declarou: ‘Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda’”. (Gênesis 2:18 NVI) Adão estava só, no jardim. Aprouve a Deus que lhe criasse uma auxiliadora idônea para que o atendesse e partilhasse de suas responsabilidades. O verbo auxiliar tem como significado ajudar, prestar socorro ou assessorar outra pessoa no trabalho. Desta feita, conclui-se que a mulher tem um importante papel na execução do plano de Deus ao auxiliar o homem. Ela é coparticipante desse trabalho.

Ao longo do relato bíblico, notamos que as mulheres faziam parte dos bens do homem (Gênesis 31:14-15; Rute 4:5-10), possuíam posição na família e forte influência na criação dos filhos (Êxodo 20:12), porém seu espaço terminava aí. Elas nem sequer eram contadas entre os habitantes e não possuíam autonomia. Se estéreis, eram substituídas pelas escravas e tinham de conviver com a poligamia do marido. Tinham tarefas específicas, como buscar água e ir ao mercado local (Gênesis 24:11-13). No entanto, mesmo em meio a tanta discriminação, encontramos, no capítulo 31 do livro de Provérbios, um profundo elogio à mulher virtuosa.

 

ENREDO – Lucas 7:36-50

Esta perícope tem semelhança com o relato encontrado em Mateus 26:6-13, em que Jesus é ungido na casa de certo homem conhecido como Simão, o leproso, porém não se trata do mesmo evento. Apesar de os anfitriões possuírem o mesmo nome, são distinguidos por suas características – um era conhecido como leproso; e o outro, como fariseu; o evento da passagem de Lucas ocorre na Galileia, enquanto os que acontecem na casa de Simão, em Betânia, na Judeia. Também existem diferenças entre as mulheres, pois uma carrega uma carga de vergonha sobre si, e a outra não; e não se pode deixar de mencionar a época – o evento de Lucas 7 acontece no princípio do ministério de Jesus, enquanto o outro se encontra próximo ao fim.

Pode-se observar, ao longo dos relatos evangélicos, que a relação entre Jesus e os fariseus foi se intensificando com o tempo, até a ruptura total que antecede o Calvário. Com isso, compreende-se que o convite de Simão para que Jesus comesse em sua casa não é de todo estranho, principalmente quando observamos o comportamento do anfitrião com relação a Jesus. Sabe-se que os feitos e as palavras de Cristo causavam desconforto ao partido dos fariseus, o que leva a crer que o convite tivesse objetivo de pôr o Mestre à prova, assim como acontece em outras passagens em que encontros semelhantes são narrados. (Lucas 11:37; 14:1)

As casas ricas possuíam um pátio interior; era costume que, quando houvesse um banquete, estranhos ficassem ali, ouvindo a conversa. É por isso que se vê uma mulher que não fora convidada achegar-se a Jesus. O estranho, porém, é a sua condição. Quando se lê “pecadora”, entende-se “prostituta”, um termo usado pelos fariseus para rotular as pessoas consideradas mais inferiores.

A mulher aproxima-se de Jesus com um frasco nas mãos. O frasco era feito de alabastro, um mineral composto de mármore, fácil de esculpir, utilizado na confecção de estátuas, vasos e frascos de perfume.

O costume judaico consistia em que o anfitrião fosse ao encontro dos convidados, saudando-os com a paz e beijando-os no rosto. Depois, os servos lavavam os pés dos recém-chegados e, então, era-lhes oferecido óleo aromático para ungir a cabeça e as mãos.Acontece que o texto revela que esse costume não foi observado no que concerne a Jesus. E é assim que se destaca, do meio dos estranhos no pátio interior, uma mulher com o frasco de perfume nas mãos e um coração compungido. Com lágrimas de arrependimento, ela lava os pés do Mestre. Com cabelos soltos, enxuga-os. E, com o perfume do frasco, unge-os.

A PARÁBOLA

Quando a mulher toca Jesus, o fariseu diz a si mesmo: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o tocou, porque é pecadora.” (Lucas 7:39) Jesus, ao perceber a intenção de Simão, dirige-lhe a palavra e conta uma parábola. Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia 500 denários, e o outro, 50. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais?” (Lucas 7:41 42)

É importante atentar para o fato de que o credor da parábola não perdoou aos devedores com base no amor que ambos, porventura, nutrissem por ele; pelo contrário, o amor que partiria deles para com o credor baseava-se no perdão desprendido por ele. Contudo, ainda resta algo para se analisar. Jesus não contou essa história a esmo; havia um objetivo. Para entender isso, faz-se necessário responder a uma pergunta: por que a mulher apareceu com um frasco de perfume nas mãos? A mulher sabia que era Jesus, já ouvira falar d’Ele, e temos de supor que, provavelmente, recebera o perdão do Mestre antes. Após apontar a frieza do fariseu e o amor da mulher, comparando-os às personagens da parábola, Jesus diz: Por isso, digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa pouco ama” (Lucas 7:47). A demonstração de amor da mulher para com o Mestre revela que ela já havia recebido um grande benefício.. “Não vinha de mãos vazias. Como judia, sabia o que fora ordenado a seu povo pelo Senhor: ‘Não compareçais de mãos vazias diante de mim, sem oferta ou sacrifício’. (Êx 23:15; 34:20; Deuteronômio 16:16)”

 

JESUS E AS MULHERES

Após tal episódio, no qual uma mulher tem primazia aos olhos de Jesus Cristo, o evangelista Lucas continua o relato, apresentando o ministério itinerante de Jesus, no qual anunciava o Evangelho do Reino de Deus” (Lucas 8:1), acompanhado pelos doze e por “algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades”. (Lucas 8:2)

Não é incomum vermos Jesus relacionando-se com as mulheres, manifestando o amor de Deus. Não é por menos que, inseridas em uma sociedade discriminatória, submissas a um despotismo masculino, ao encontrar alguém que as valorizasse, e não as ocultasse o Reino de Deus, procurassem ajudar a propagar a Sua mensagem. O verso três diz que elas ajudavam com seus bens.

Com relação às mulheres mencionadas, o Comentário Bíblico Beacon aponta:

Maria, chamada Madalena, significa Maria, da cidade de Magdala. Ela é descrita como uma mulher da qual saíram sete demônios. Normalmente se acredita que fora uma prostituta que havia se arrependido e se tornado uma santa discípula de Jesus. Geralmente ela é assim representada pelos pintores e por alguns historiadores antigos. Mas não há o menor sinal de evidência, seja aqui, seja em qualquer outra parte do Novo Testamento, de que tenha sido uma mulher imoral. Foi claramente demonstrado que ela estava entre os mais devotados discípulos de Jesus. A expressão sete demônios pode significar muitos demônios, já que o número sete é frequentemente usado para indicar um número indeterminado. Sem dúvida, tinha sido possuída por demônios, a ponto de chegar a um estado de insanidade.

Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes. O Herodes mencionado é Herodes Antipas, Governador da Galileia. O registro não diz de que mal Joana foi curada - se era uma possessão demoníaca ou uma enfermidade física. A sua posição mostra que as pessoas proeminentes também eram levadas a Cristo. Supõe-se que, na época, fosse viúva. Sobre Suzana não se sabe nada, exceto o nome. Muitas outras. Apenas três nomes são mencionados - sem dúvida, devido à importância. Mas houve muitas mais, constituindo uma grande sequência de mulheres que Lhe serviam com suas fazendas. Isso talvez signifique que todas eram mulheres de posses, possivelmente membros da classe alta.

O tratamento que Jesus dispensava às mulheres era notável. Vemos essa atitude causar espanto quando Ele encontra a samaritana no poço (João 4:7); sua grandiosa atitude diante da armadilha dos fariseus no episódio da adúltera (João 8 1-11); vemos como conforta as irmãs Marta e Maria, na ocasião da morte de Lázaro (João 11:17-37); seu carinho por Maria quando ela unge Seus pés (João 12:1-10); a atenção dada à mulher com fluxo de sangue que tocara a barra de Suas vestes (Lucas 8:40-48); a proteção contra o abandono das mulheres através do divórcio causado pela dureza do coração do povo (Lucas 16:18). Por isso, quando Ele é crucificado, Lucas descreve a cena com “mulheres que lamentavam e choravam por Ele”. (Lucas 23:27 NVI)

 

CONCLUSÃO

É maravilhoso observar a maneira como Jesus cuida de cada um de nós! Compreender que Seu sacrifício não foi em prol de uma classe elitizada, mas que abrange todos que o reconhecem como Senhor e Salvador. Por mais que aquela sociedade, a que Ele estava inserido, ditasse regras que favoreciam apenas alguns, Jesus não omitiu a verdade e demonstrou amor e justiça por cada um que encontrara em Seu caminho, desde o leproso ao cego, do centurião romano ao publicano, do judeu ao gentio, do homem à mulher. Seu olhar igualitário deve ser o nosso olhar. Para Deus, não existe superioridade ou inferioridade; todos somos alvos do Seu amor. “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28)

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