Texto de Estudo

1 Tessalonicenses 4:3:

3 Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da prostituição;

 

INTRODUÇÃO

 

Na lição desta semana veremos como a Bíblia Sagrada nos ensina a lidar com a santificação. Será esta uma opção pessoal ou uma ordem divina? De acordo com a palavra de Deus, viver em santidade não é uma opção pessoal, é uma exigência divina! A Bíblia ensina que a salvação somente pode ser obtida única e exclusivamente pela graça, mediante a fé no sacrifício de Jesus. Porém, também ensina que, uma vez salvos, devemos nos esforçar para vivermos em santidade.

As recomendações bíblicas com relação à santidade são muitas. Deus se revela como sendo um Deus Santo (Levíticos 11:45; Isaías 6:3). Ele também exigiu de seu povo que se santificasse e que fosse um povo santo (Levíticos 20:7). Conheçamos, então, um pouco mais sobre a santidade na vida cristã.  

 

A EXIGÊNCIA DA SANTIFICAÇÃO PESSOAL

 

A palavra “santo” essencialmente significa “separado”.Esse termo, tanto no hebraico (qodesh) quanto no grego (hagios), literalmente significa “separar”. Todavia o substantivo santificação (gr. hagiasmos) não ocorre no Antigo Testamento, mas é encontrado 10 vezes no Novo Testamento.

Em síntese, o verbo “separar” tem três significados:

1) venerar ou reconhecer que é venerável, ou seja, reverenciar (cf. Mateus 6:9; Lucas 11;2; 1 Pedro 3:15); 2) separar das coisas profanas e dedicar a Deus, isto é, consagrar (cf. Mateus 23:17-19; João 17:19 10:36; 2 Timóteo 2:21); 3) purificar ou, em outras palavras, limpar (cf. Efésios 5:26; 1 Tessalonicenses 5:23; Hebreus 2:11; 9:13; 13:12). Com base nesses três significados teológicos, podemos definir a santificação em quatro níveis espirituais: 1) separação para Deus; 2) imputação de Cristo como nossa santidade; 3) purificação do mal moral; 4) conformidade com a imagem de Cristo.  

A palavra “santo” e todos os seus correlatos, tais como “santidade”, “santificação”, “santificado”, “santificar”, “santíssimo”, aparecem quase 500 vezes somente no Antigo Testamento. Santidade é a qualidade mais exigida para descrever o relacionamento do ser humano com Deus e também é o atributo mais repetidamente enfatizado, no que diz respeito à natureza divina (cf. Levíticos 19:2 20:26; Isaías 6:3; Salmos 99:3-5,9; Os 11:9; Amós 4:2; Efésios 1:4; 1 Pedro 1:16). Ralph Smith diz que a santidade no Antigo Testamento “diz respeito ao chamado de Deus e a exigência de que as pessoas sejam santas como ele é santo, no sentido de que sejam puras, limpas, justas e compassivas”.

Apesar de não ser tão frequente como no Antigo Testamento, a palavra “santo” e seus correlatos se repetem, nas páginas do Novo Testamento, de maneira um tanto quanto significativa: mais de 200 vezes! Talvez o texto mais enfático sobre a santificação seja o de Hebreus 12:14 em que lemos: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Essa passagem é muito clara quanto à necessidade absoluta de santidade. O verbo “seguir” é enfático e expressa esforço e determinação. Essa palavra está no modo imperativo, ou seja, é uma ordem. No texto, duas são as virtudes que devem ser buscadas e, entre elas, está a santificação. 

Embora sejamos exortados a “seguir a santificação” (Hebreus 12:14), não devemos cair no erro de imaginar que a mesma resulta do esforço humano. É claro que a cooperação humana faz parte do desenvolvimento de uma vida de santidade, mas é por intervenção divina que a santificação acontece. Conforme bem observa Franklin, “a santificação é uma obra realizada pelo Espírito Santo, não é algo que fazemos por nós mesmos”. Portanto, podemos entender santificação como sendo a obra contínua do Espírito Santo pela qual ele vai conformando o fiel à imagem de Cristo (Romanos 8:29-30; 2 Coríntios 3:18).

Outro texto que merece destaque é o de 1 Pedro 1:15-16, em que lemos: “Como é santo aquele que vos chamou, sede também santos em toda a vossa maneira de viver, porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo”. Com base nesse texto, podemos destacar, pelo menos, duas razões pelas quais a santidade deve ser nosso objetivo principal de vida: em primeiro lugar, devemos ser santos por causa da “santidade divina”: “Como é santo aquele que  os chamou”; em segundo lugar, por causa da “ordem divina”: “Sede também santos”.

Observe que, tanto no texto de Hebreus 12:14 quanto no texto de 1 Pedro 1:15-16, a santidade não é encarada como opcional ou como um convite, mas, sobretudo, como um mandamento de Deus.  

 

A NATUREZA DA SANTIFICAÇÃO PESSOAL

 

A santificação pessoal é uma etapa imprescindível no processo de salvação, que, tendo iniciado na justificação pela fé em Cristo, será concluído com a glorificação, na volta de Jesus. Mas qual a natureza da santificação? Como a Bíblia Sagrada a conceitua? Conhecer esses princípios espirituais certamente é um grande passo para a prática eficiente da santificação pessoal.  

A ideia de santificação aplicada aos cristãos pode ser analisada sob três perspectivas. Vejamos:

1. Santificação posicional. Significa que no ato da regeneração os crentes são santificados, e, portanto, são santos porque já estão separados para Deus e foram purificados (Romanos 1:7; Hebreus 2:11; 10:10,14,29). Nesse sentido a santificação é “a liberdade do domínio da velha natureza, que foi crucificada com Cristo”. Este é, sem dúvida, o mais impactante tipo de santificação, pois Paulo afirma que “somos santificados em Cristo Jesus, e, por isso, chamados para ser santos” (1 Coríntios 1:2). Esse tipo de santificação é obtido unicamente pela fé em Cristo (cf. Atos dos Apóstolos 26:18) e é também realizado de uma vez por todas. Desta forma, o salvo pode afirmar que foi, definitivamente, justificado, santificado e redimido, desde que realmente se mantenha revestido da justiça e da santidade de Cristo, pela fé. 

2. A santificação progressiva. O crente está santificado em Cristo, mas o Espírito Santo continua atuando em sua vida, moldando seu caráter, desenvolvendo sua personalidade, purificando-o e santificando-o diariamente. Essa santificação progressiva nos exorta a nos santificarmos ainda mais (Efésios 4:17-32, 1 Coríntios 3:1-17; 1 Tessalonicenses 5:23). Portanto, na santificação progressiva, o salvo  desenvolve a santificação iniciada após sua justificação em Cristo Jesus. É um processo de crescimento diário. A santificação representa “uma luta em busca do crescimento na fé. É um processo de crescimento espiritual”. Neste processo, o crente “coopera” na sua santificação por meio da “mortificação dos desejos pecaminosos, e em levar o ser interior à obediência a Cristo às normas apresentadas em sua palavra” (Romanos 8:13; Colossenses 3:5).

Diferentemente da santificação que provém da cruz de Cristo, essa se desenvolve por toda a vida e só será consumada na volta de Jesus.  

3. A santificação futura. A santificação futura diz respeito ao processo final, quando finalmente seremos aperfeiçoados diante de Deus e seremos semelhantes a Jesus (1 João 3:2-3). É nesse momento que ocorrerá a transformação do corpo corruptível em um corpo incorruptível (Romanos 8:11-23). Na vinda de Cristo, cada crente receberá um corpo novo que estará sem pecado. O Cristão não terá mais de resistir ao pecado ou de crescer  para a perfeição. Sua santificação estará completa. Ele estará inteira e eternamente separado do pecado e para Deus.

A santificação ocorre em duas esferas. A primeira é a mortificação do velho homem, onde o corpo do pecado é desfeito (Colossenses 3:1-5; Romanos 8:13); assim, o crente faz “morrer sua velha natureza”, o velho homem com seus feitos. A outra esfera é a vivificação, que consiste em viver em novidade de vida (Romanos 6:4). Tanto a mortificação como a vivificação acontece de forma simultânea. Paulo exemplifica esse princípio, quando afirma: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 6:20 NVI). 

 

MEIOS PARA A SANTIFICAÇÃO

 

O desafio do processo de santificação é o crente ser equiparado ao caráter de Cristo. É um erro tentar medir nosso “nível de santidade” tendo por base a vida do outro. O padrão é Cristo. Ele é o alvo a ser atingido. Medir a santidade tendo como modelo o homem limitado, falho e pecador, é nivelar a santidade por baixo, enquanto a mesma só pode ser nivelada por cima, no nível de Deus, e ele não aceita nada menos que a sua própria santidade como parâmetro.  

Vejamos agora os meios empregados no processo de santificação.

1. Estar em Cristo (João 15:4-5). A comunhão com Cristo, a participação do crente na própria natureza santa de Deus é um dos elementos básicos da santificação, pois o Senhor afirma categoricamente: “Sem mim nada podeis fazer”. É indispensável o cultivo da comunhão com Cristo para uma vida de santificação. 

2. Vida de oração (Filipenses 4:6). A oração é nossa conexão direta com Deus, na oração conhecemos sua vontade, a oração nos torna sensível à sua voz. Outro aspecto positivo na oração, no tocante à santificação, é que ela acalma nossa inquietude, tira as preocupações, prende nosso pensamento em Deus e nos torna dependentes dele. E é na oração “que o crente cultiva sua relação com aquele que é Santo e santifica sua vida”. Por outro lado, a oração nos leva a contemplar a santidade de Deus, estabelecer o contraste entre sua santidade e nosso estado pecaminoso. A percepção desse contraste conduz ao arrependimento e ao quebrantamento do coração. 

3. Esforço pessoal do crente (Filipenses 2:12-13). A santificação é uma obra do Espírito Santo, mas não isenta o homem de sua cooperação, visto ser ele parte integrante dela. Cabe a ele buscar a vontade de Deus, consagrar-se, lutar para resistir à tentação, ser submisso e orar a Deus. E, como recomenda Judas, o crente deve “batalhar pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos” (Judas 3). 

4. Comunhão com a Palavra de Deus (Jo.17:17). A Palavra de Deus é o instrumento do Espírito Santo na santificação do crente.126 O salmista expressa essa verdade ao dizer: “Escondi a tua palavra no meu coração para não pecar contra ti” (Salmos 119:11). A Palavra de Deus nos faz conhecer a sua vontade, nos mostra o que  é errado, nos alimenta, nos direciona, nos instrui e nos qualifica “para toda boa obra” (2 Timóteo 3:16-17). Isso faz dela uma ferramenta essencial no processo de santificação. 

É preocupante quando encontramos crentes querendo er “santos”, mas que não têm intimidade com a Palavra de Deus, não a examina, não procura conhecê-la, não pauta sua vida por ela. Sem Palavra não há santificação. No máximo, haverá um legalismo disfarçado de santidade, semelhante aos fariseus que Jesus tanto criticou nos dias em que esteve na terra. 

 

EFEITOS DA SANTIFICAÇÃO

 

Os efeitos da santificação são bem visíveis na vida do crente, tornam-se sua marca. Ele é visto por atitudes bem peculiares, não pela arrogância ou por uma religiosidade superficial e ritualística, não por ser o “santarrão”, que em sua vida adota práticas que ferem a santidade de Deus.

Os que buscam uma vida de santificação pessoal possuem características tais como: 

1. Progridem na vida cristã (2 Pedro 3:18). O crescimento contínuo é uma marca fundamental na vida de quem cultiva a santidade porque ela se torna nutriente que dá vida ao crente. O caminho da santificação tem por base a atuação do Espírito Santo, a comunhão com Deus, a comunhão com a Palavra de Deus, o desejo de conhecer a Deus, a submissão a Deus e à sua vontade. São estas coisas que produzem o crescimento na vida do crente. 

2. Desgosto pelo pecado (1 João 3:9). O pecado provoca no crente que trilha o caminho da santificação a mesma reação que provoca no próprio Deus. Ele se entristece com seu próprio pecado como com o pecado alheio, pois estes ferem a honra e a santidade de Deus. Santidade esta que ele está gradativamente compartilhando. O crente que não consegue sentir repulsa pelo pecado está desorientado no caminho que conduz a santificação.

3. Desejo de compartilhar o Evangelho (Romanos 10:14-45). O crente consagrado ao seu Senhor, que é conhecedor de sua vontade, sabe das terríveis consequências do pecado, tem conhecimento de que a salvação das vidas depende de crerem na mensagem do Evangelho, que é a única maneira de escaparem do juízo de Deus. Mas além de conhecer bem as necessidades dos pecadores perdidos, o crente que anda em santificação com o Senhor aprende a amar os pecadores com o mesmo amor com que o Pai nos ama, mesmo que não seja na mesma proporção e intensidade, mas em qualidade sim, pois o que tem sido derramado em seu coração é o amor de Deus. 

4. Disposição em servir (João 12:26). A santificação aproxima-nos de Cristo. Nosso desejo se torna o reflexo de sua vontade, passamos a compartilhar as mesmas coisas. Então aflora no coração do crente o desejo de servir, assim como seu Mestre serviu e deu “a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20:28). A santificação mostra-se mais efetiva quando o crente vive para servir, e não para ser servido pelos outros, revelando com isso sua harmonia com o Cristo, que sendo Senhor se fez servo de todos. 

 

UMA PALAVRA FINAL

 

A santificação é, ao mesmo tempo, uma obra do Espírito Santo no coração do crente e também a busca por parte do salvo em Cristo. Nesse processo ele vai sendo transformado gradativamente à imagem de Cristo. A santificação não se busca em mosteiros ou de forma isolada do mundo, mas é no confronto direto com o pecado que se acentua ainda mais a batalha da fé.  

Uma vez que a santificação se torna um estilo de vida para o cristão, ela deixa seus traços na vida de quem a busca; ela se mostra pelo progresso contínuo, pelo desgosto com relação ao pecado, pelo desejo de compartilhar o Evangelho e pela disposição ao serviço cristão.  O nosso desejo é que “o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23). Assim, a santificação é contínua e integral. É ela que repara tudo o que foi afetado pelo pecado, o ser humano em todas as suas dimensões.